Sunday, December 10, 2006

Escravidão rural ou algo sobre Antônio


O progresso exige suas vítimas.

Antônio vivia numa cidade qualquer do norte do Estado do Tocantins.
Para nós, que temos uma concepção de Brasil segundo olhos urbanos,
Metropolitanos, cosmopolitas,
Essa região não existe,
Antônio não existe.
Neste lugar não há comércio, anda-se de cavalo,
Os ventos carregam terra e o sol é de rachar.
Sem perspectiva
Antônio saiu do Tocantins rumo ao Maranhão
À procura de trabalho.
Vejam bem, o Maranhão, para quem não sabe,
É praticamente igual ao Tocantins
Como também é o Pará e o Mato Grosso e Roraima
Nessa região, encontram-se os maiores latifúndios do país
Carvoarias, plantações de cana, pimenta, batata.
Alguns senhores de terra podres de rico e uma massa de miseráveis.
Rumo ao Maranhão, foi vomitado numa cidade qualquer,
Idêntica em todos os aspectos ao local que abandonara dias mais cedo.

O progresso exige suas vítimas.

Chegando ali, instalou-se sem dinheiro num hotel precário e sujo
Assim como ele se encontrava. Não havia contrastes.
Mas sabia que não teria que pagar pelo hotel.
Demorou dois dias para que se apresentasse a ele um sujeito chamado Gilberto,
Profissão Gato, ou intermediador, ou agenciador,
Oferecendo-lhe emprego numa fazenda 300 quilômetros mais ao norte.
O pagamento do hotel ficaria por conta do gato,
Antônio o pagaria mais tarde com trabalho,
Um ótimo negócio.
Se enfiou numa van com mais 15 trabalhadores que se encontravam na mesma situação:
Migrantes, perdidos, agora agenciados.
Sem família, sem comida, corpo surrado.

O progresso exige suas vítimas.

O alojamento era num velho celeiro
O cheiro de merda contaminava cada milímetro cúbico de ar.
A cama era uma rede velha, o fogão era sobre uma pedra no chão
O banheiro era ao ar livre
O banho de caneca.
Ao trabalho:
Cortador de cana precisa de bota para se enfiar no canavial, certo?
Correto.
Aluguel de um par de botas: 20 reais.
Cortador precisa de proteção nos olhos, certo?
Perfeito.
Óculos de proteção: 30 reais.
Seres humanos precisam comer para ficar em pé, certo?
Um saco de arroz: 20 reais
Feijão, 10 reais,
E basta.
Sóbrio ninguém agüenta esta vida, entende?
Cachaça: 10 reais.
Anota no caderno, depois a gente acerta esta dívida
Disse Gilberto.

O progresso exige suas vítimas.

Antônio trabalhou dois meses e nada recebeu.
Pensava em sua família abandonada lá no Tocantins esperando receber
Alguma quantia, podia ser que estivessem passando fome como ele.
Não seria a primeira vez.
Trabalhou mais alguns meses, o caderninho completo, quase nas últimas páginas
Contraindo dívidas para pagar dívidas
Cheirando a merda de cavalo
Dormindo sobre merda de cavalo
Vivendo como uma merda de cavalo.
Belo dia pensou, basta dessa vida,
Procurou Gilberto para o acerto de contas.
Este, por sua vez, foi muito direto,
Te mato, filho da puta, se tu for embora enquanto não me pagar.
Ficou.

O progresso exige suas vítimas.

Por mais alguns anos trabalhou naquela fazenda
Nas mesmas condições e com o mesmo punhado de dinheiro miúdo no bolso
Com o mesmo cheiro de pobre e tão perdido quanto no dia em que chegou.
Acordou para trabalhar às 4 da manhã num dia quente
Olhou a imensidão daquele descampado
O sol vinha nascendo por detrás do primeiro morro
E num instinto começou a caminhar no rumo oposto do canavial
Sem se importar se iria tomar uma bala nas costas
Porque a vida pra ele realmente já não agradava
E nada valia.
Mas não o atingiram.
Caminhou por um dia e meio por uma estrada deserta
Até que chegou num vilarejo.
Foi à delegacia, indicaram a ele uma organização que luta
Pela erradicação do trabalho escravo
E pra lá ele foi.
Mais tarde, se lembraria, naquela organização talvez tenha sido a primeira vez
Que fora tratado como gente.
O Ministério do Trabalho foi até a fazenda verificar a denúncia
Encontrou o que só podia encontrar
Miséria e canalhice da mais suja
Pessoas doentes, famintas e endividadas
Mas ingênuas e desesperançosas também.
Libertou a todos os trabalhadores escravos
Pagou a todos o salário que lhes cabia
Cada um que fosse de volta pros braços da família
Todos sabendo dos direitos que têm para que não voltem
A ser usados como meio espúrio para o enriquecimento alheio.
Quanto ao dono da fazenda, quando perguntado sobre as condições de trabalho
De seus funcionários, disse a frase que só poderia ter saída da boca
De um homem podre e cruel, um digno filho da puta com todas as letras:

O PROGRESSO EXIGE SUAS VÍTIMAS

........

Segundo estimativas recentes, 25 mil trabalhadores rurais trabalham como escravos em grandes latifúndios em todo o país.


O progresso de uns é a miséria de outros.
O progresso de uns é o atraso de todos.

Friday, December 01, 2006

Espelho

Era uma aluna exemplar.
Bastou isto para que o professor de Direito Penal lhe fizesse uma oferta.

Você quer trabalhar?
Claro que sim
Pois bem, vá a este Fórum, é aqui pertinho
Converse com o Claudiomiro
Ele te dará um emprego.

Os olhos da menina brilharam
Era um momento muito especial.
Passou horas, ao longo deste dia,
Planejando o que iria fazer nos próximos anos.
Resumidamente:
Viajar, ter um amor,
Casar
Ter filhos
Comprar algumas miudezas menos importantes
Discos
Roupas
Petiscos pra antes do jantar.

Chegou ao Fórum
Pediu pelo Claudiomiro
Indicaram o segundo andar
Vara Criminal, final do corredor
É um senhor careca de óculos
Você irá vê-lo, disse a recepcionista.
Subiu as escadas
Com os pensamentos tortuosos.

Era uma sala bem grande
Havia três colunas de seis mesas enfileiradas
Todas com pilhas enormes de processos
E olhando de frente, como ela estava agora,
Não se via o rosto de ninguém por trás dessas barreiras
De papéis embolorados.

Mas avistou logo o tal do Claudiomiro
Que parecia ser um tipo de supervisor.
Caminhava por entre os corredores de mesa
Com um cigarro pendendo da boca
Era um pouco gordo, bem careca
Usava óculos fundo de garrafa
E suava, sua camisa azul clara estava completamente manchada
De suor nas axilas.

Tiveram uma breve conversa
Pareceu gentil, mas tinha um tique estranho:
A cada duas ou três palavras ele
Escancarava a boca, assim como quem quer destampar o ouvido.
Ficou assustada num primeiro momento
Mas com o decorrer da conversa o máximo que sentiu foi pena daquele sujeito.
Ele então disse,
Me acompanhe, venha
Ela o seguia, caminhando no corredor por entre as mesas.
Passaram pela primeira
Segunda, terceira,
Quarta
Quinta
Quando chegaram na sexta mesa
Última do corredor
Claudiomiro disse,
Essa será sua mesa, você começa amanhã
Obrigada, ela disse candidamente.

Ele teve um tique um pouco mais demorado
Ela ficou angustiada
E acabou por aí.


A vida foi correndo
Trabalhava de dia, estudava à noite
Conheceu na faculdade seu namorado
Que se tornaria anos mais tarde seu marido
Tinha uma vida modesta
Mas a felicidade ainda existia.

Veio um filho, veio uma filha
Ela fez das tripas coração para manter a família unida
Fez hora extra no fórum pra dar boa educação aos filhos
Via-os pouco, muito pouco,
Mas só Deus sabe o quanto os amava.

Trabalhou por anos e anos naquela mesma mesa velha
O Claudiomiro morreu no dia em que seu maxilar
Caiu com um acesso nervoso
De tique nervoso
E se asfixiou de alguma maneira que ninguém soube explicar.

Um outro o substituiu,
Todos os dias chegavam processos
Processos
Processos
Coisas do arco da velha ressurgiam
E nossa menina escondida
Por trás desta vida mesquinha e mecânica
Por trás de si mesma e dos problemas alheios.

Quando se deu conta
Seus filhos tinham casado
Um neto estava para chegar
O marido se aposentaria no ano seguinte
E ela, velha, tomando um café atrás do outro
Fumando três maços de cigarro ao dia
Velha, os cabelos brancos
A cara enrugada e manchas senis em volta dos olhos.

Num dia qualquer,
Quando acabou o expediente
Levantou-se calmamente
Desceu as escadas devagar porque as pernas já não prestavam
O Fórum estava vazio
Restavam apenas o segurança noturno
Uns promotores, uns policiais,
Uns seres estranhos que vagavam por ali,
Passou por todos eles
E quando olhou pra fora, qual não foi sua surpresa
Quando avistou Claudiomiro
Com a boca escancarada
Acenando-lhe desesperadamente.

Tudo ficou amarelo,
Depois rosa,
Depois ela estava rodeada de gente
E a cara grande do Claudiomiro
Sobre ela
O que houve? O que houve moça?
Perguntava.
Não sei, acho que me caiu a pressão.
Deram-lhe um copo de água com açúcar
Ela descansou por alguns minutos
Claudimiro veio em sua direção

Quando você desmaiou estávamos a caminho de sua mesa
Ia te mostrar aonde você irá trabalhar.

Olha, agradeço a gentileza seu Claudomiro - disse a moça - mas não será preciso.

Antes de sair do Fórum, parou no banheiro
E se olhou no espelho:
Ao ver sua imagem refletida
Jovem e linda
Tudo fez sentido.
Foi invadida por uma alegria contagiante
Porque era a vida que se apresentava
Ainda menina,
Para ser por ela cultivada cuidadosamente
Como um pé de jabuticaba
No quintal da casa da avó.

Friday, November 10, 2006

Flamenco-jazz

Graças ao meu grande amigo Tanga, percussionista de primeira qualidade e grande conhecedor de música, tenho o prazer de escutar neste momento, 3:43 da manhã de um sábado qualquer, uma mistura inusitada e deliciosa de música flamenca e jazz. Sempre que me deparo com coisas do tipo, música fina feita por gênios, fico emocionado e feliz, transbordo. Um novo mundo se apresenta e me desafia, grita em meu ouvido, Expanda seus sentidos, eu obedeço. Sou outro, castanholas, piano e contrabaixo e um instrumento de sopro grave que não consigo identificar. Gosto tanto de música que ela já faz parte de mim, ocupa meus pensamentos vagos, distrai minha solidão, me ergue. Mas também pode embalar meu sono.
Flamenco-jazz, madrugada rara. Doces sonhos me aguardam.

Monday, November 06, 2006

Mais um a Menos




Era domingo, quase 11 horas da noite, soprava um vento gelado e a cidade estava praticamente deserta. No canteiro que separa os dois lados da avenida, reunia-se um grupo de garotos de rua, cada um com seu rodinho e sua garrafa de água misturada com sabe-se-lá-o-quê nas mãos, alguns cheiravam cola, outros não, frio todos tinham. O semáforo fechou, um dos meninos avançou na direção do meu carro. Um outro, um pouco menor, seguiu o primeiro. Ofereceu-se, o maior, para limpar o vidro. Eu fumava um cigarro e não tinha, que surpresa, nenhuma moedinha.

- Obrigado, não tenho nada mesmo.
- Dá um cigarro então, tio? – era o maior que pedia.
- Você é muito novo, rapaz. Não vou te dar nada.
- Num sou novo não, mano.
- Quantos anos você tem?
- Catorze – pode ser que ele realmente tivesse, dado que a alimentação e os hábitos de vida afetam o desenvolvimento físico, mas o fato é que ele aparentava uns oito ou nove anos, no máximo.
- E você? - disse, dirigindo-me ao menor.
- Onze.
- Dá um cigarro, tio- repetiu o maior- Eu fumo, fumo até baseado, cheiro cola. Só falta mesmo é entrar na vida.
- Não vou te dar, já falei.

O farol abriu, eu avancei lentamente com o carro, olhando o rosto daquele garoto pelo retrovisor. Não lembro o que estava fazendo na rua àquela hora, não lembro nem pra onde ia nem de onde vinha, mas escrevo essas palavras e vejo o rosto do garoto estampado no segundo plano. Fico pensando quantos iguais a ele se escondem pelas ruas e fogem de nossas vistas, deixando-nos isolados numa ilha de ilusão, onde a segurança impera e nos abriga, mas ninguém se atreve a mergulhar nas águas geladas da realidade cruel do mar que nos cerca. Quero dizer: quantas vezes pensamos, ou melhor, refletimos a fundo sobre a violência? Ou sobre a miséria, para atingir a raiz do problema? O conhecimento de que ela existe, sem dúvida alguma, todos temos. Ainda nos restam os olhos. Mas é um conhecimento que se assemelha muito ao conhecimento da morte. Todos temos plena consciência de que um dia, seja cedo ou tarde, com aviso prévio ou sem, nosso dia vai chegar. Bactérias irão se alimentar de nossos restos, que a bem da verdade já não nos servirão de nada (sejam doadores). Talvez por conta desta certeza, tendemos a empurrar o assunto para um canto qualquer de nossa consciência, pensar mais tarde ou jamais pensar, melhor assim, vive-se bem enquanto há vida.
Um dia poderei me reencontrar com aquele menino, que será então um homem, enrijecido pela tristeza da vida, e quando nossos destinos se cruzarem, (ele olhando fixamente para o meu rosto amedrontado, eu pedindo piedade), já será tarde, soprará um vento forte e derradeiro, o mesmo do nosso primeiro encontro. Os pensamentos irão se juntar por um breve instante, todos aqueles que por uma vida evitamos pensar, enfim eles se juntarão, na linha de chegada. Tarde demais. Porque no dia em que o garoto “entrar na vida”, pode ser que seja na minha, e então eu serei apenas mais um a menos, menos um a mais, bactérias e pó.

Tuesday, October 31, 2006

Aquele estranho dia que nunca chega

O poema abaixo é de Gilberto Freyre, e data de 1926. Na época, o maior historiador brasileiro de todos os tempos tinha apenas 26 anos. Em 1933, publicaria “Casa Grande e Senzala”, seu livro mais conhecido mundo afora. O poema "O outro Brasil que vem aí" inaugura o livro, na primeira página. Passaram-se nada menos que 81 anos desde que este homem cheio de esperança sentou para escrever estas palavras. Ninguém mais do que ele queria que elas se tornassem realidade. Mas, se estivesse vivo, provavelmente mandaria queima-lo. Ao que parece, tudo saiu errado.


O outro Brasil que vem aí

Eu ouço vozes
Eu vejo cores
Eu sinto passos
De outro Brasil
Mais tropical
Mais fraternal
Mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez de cores dos Estados
Terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
Terão as cores das profissões e das regiões.
As mulheres do Brasil em vez de cores boreais
Terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
Todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
O preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
Lenhador
Lavrador
Pescador
Vaqueiro
Marinheiro
Funileiro
Carpinteiro
Contanto que seja digno do governo do Brasil
Que tenha olhos para ver o Brasil,
Ouvidos para ouvir pelo Brasil
Coragem para morrer pelo Brasil
Ânimo de viver pelo Brasil
Mãos para agir pelo Brasil
Mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasil
Mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores
(europeus e norte-americanos a serviço do Brasil)
Mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar)
Mãos livres
Mãos criadoras
Mãos fraternais de todas as cores
Mãos desiguais que trabalhem por um Brasil sem Azeredos,
Sem Irineus
Sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
Nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
Pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
De artistas
De escritores
De operários
De lavradores
De pastores
De mães criando filhos
De pais ensinando meninos
De padres benzendo afilhados
De mestres guiando aprendizes
De irmãos ajudando irmãos mais moços
De lavadeiras lavando
De pedreiros edificando
De doutores curando
De cozinheiras cozinhando
De vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens,
Mãos brasileiras
Brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
Tropicais
Sindicais
Fraternais.
Eu ouço vozes
Eu vejo as cores eu sinto os passos
Desse Brasil que vem por aí.

Insônia

Mais uma noite sem dormir
Imerso no escuro
Do quarto obscuro
Da mente
Os olhos
A boca
Os dentes
Apertados feito corrente
De presídio
De mansão
De igreja
De barraco
O medo é o mesmo
Em todos os lados
Cacos de vidro e dentes
Olhos fechados
Imagem:
Bomba de Hiroxima.
Criança nua
Correndo descalça.
Chacina na Rocinha.
Corpos cobertos de
Plástico negro e
Lágrimas.
Olhos abertos
Calor e medo
Suor e nojo
Uma mosca, um rato,
Rádio quebrado
Silêncio.

O sono não vem.
Imagem.

Algumas crianças cheiram cola
Debaixo da ponte
Entregam folhetos moças tristes.
Um índio
Queimaram debaixo da ponte
Moleques bêbados
Filhos da puta.

Ter medo de quem?

Turistas estrangeiros de passagem pelo Rio de Janeiro
Tiram fotos com belas poses
Casais se beijam e prometem amor eterno
No fundo, a mais bela paisagem.
No canto da foto um cadáver coberto.
Ninguém parece se importar.

Ter medo de quem?

O jornal noticiou
Explode uma bomba soterrada
Da Segunda Guerra Mundial
Durante a construção de uma estrada
Na Alemanha.

Ter medo de quem?

Morrem 40 civis num ataque morrem
10 soldados no Iraque.

Ter medo de quem?

Na África, morrem de fome.
Na Ásia, morrem de fome.
Na Europa não.
Nos Estados Unidos não.
Na América do Sul morrem de fome
Os miseráveis.

Ter medo de quem?

Ter medo de quem?

Ter medo de quem?
Rajadas de metralhadora
Embalam meu sono.
Mas já sei.
Não sonho, não sonharei.
No escuro do quarto
Silêncio
Ratos
Cada coisa que passa
Pela cabeça e deixa
A gente incucado
Antes de pegar no sono.
Lapsos.
As horas passam
O tempo corre com os ponteiros
Giram nas camas
Pessoas assim.

É isso que somos.

Um circo abandonado
Num ciclo sem fim.

Monday, October 16, 2006

BlaBlabacas

Recebo informação por todas as partes.

Querem que eu emagreça
Coma um prato de alfafa e uma pílula milagrosa ao dia
Aceite este padrão estético de merda
Estipulado naturalmente
Pela sociedade ocidental plastificada.

Querem que eu tenha medo das ruas
Dos mendigos e putas
E dos malabaristas no farol.
Como se ser pobre e magro e feio
Fosse uma opção do indivíduo
E não uma imposição social.

Como se a vida fosse fácil!

Querem que eu vote
No partido do povo
No partido dos ricos
E que acredite na honestidade
Dos intelectuais e duvide da possibilidade
De sua existência nessa massa ignorante.

Como se honestidade fosse uma teoria científica!

Querem que eu me interesse pela vida alheia
E feche os olhos para o que pode me afetar.

O que vejo nos jornais, revistas, noticiários,
Em programas burros de entretenimento imbecil
São informações recortadas, montadas feito um quebra-cabeças,
Massageando o ego de algum canalha
Que dita ordens da beira da piscina.
Mas são muito profissionais, essa cambada,
Fazem tudo bem feito
De modo que eu não sei mais em que, ou em quem acreditar.
Vou me arrastando por esse caminho espinhoso
Tentando compreender o que acontece de verdade
Enquanto por todos os lados tentam limitar minha capacidade intelectual.

Mas eu digo, senhores,
Posso não existir na concepção mesquinha de vocês,
Mas que eu penso, miseráveis, quanto a isso não há duvidas.

Cantar de galo, só em outra vizinhança!

Tuesday, September 26, 2006

Tem Espaço Aí?


Chuva forte.
Dois indivíduos procuram se abrigar
Embaixo do toldo de um bar
Fechado.

Como estavam vestidos
Não vem ao caso.
Como bebiam café
Não vem ao caso.
Como trepavam
Não vem ao caso.
Apenas queriam se abrigar.

Um deles havia chegado antes
E já estava descansado do pique que dera
Para fugir da chuva e chegar ao abrigo.
O outro chegava agora, neste instante,
Ofegante e escorrido.

Tem espaço aí?
O outro deu um passo para o lado:
Claro.
Ficaram assim por um tempo.
Olhando a chuva.
Olhando os sapatos molhados.
Apenas os dois, o bar, a água correndo.
Foi quando o primeiro se adiantou:

Notei seu sotaque. O senhor de onde vem?
Nasci no Líbano, mas quando tinha 10 anos
Meu pai foi atingido por um míssel israelense quando voltava do trabalho
E minha mãe decidiu que era hora de viajar.
Viemos para São Paulo, e nunca mais voltamos.

Libanês, então? Perguntou o primeiro.
Exato.

Mas o senhor também tem um sotaque diferente, disse o libanês. É estrangeiro?
Sim, nasci em Israel, morei aí por toda minha vida,
Até que um dia uma bomba caiu sobre minha casa.
Então eu decidi que seria melhor visitar meus parentes no Brasil
E aqui estou, até hoje...

Um minuto de silêncio.

O israelense diz,
Parece que a chuva diminuiu
Parece que sim...
Bom, vou indo então...Tenha um bom dia.
Pra você também, tudo de bom.

Mais tarde, o bar abriria as portas.

Passavam por ali todos os dias
As espécies mais desgraçadas de seres humanos
Prontos para furar o seu fígado
Com um pedaço de vidro cortante.
Aquele espaço coberto pelo toldo
Onde essas duas vidas se cruzaram despretensiosamente
Por inúmeras vezes
Foi o palco da tragédia fatal
Da vida marginalizada
Das ruas.

Não foram poucos os dias
Em que o encarregado do bar
Viu rios de sangue manchando aquele exíguo espaço.
De fato, o cheiro de morte fresca invadira tanto seus pulmões
Que acabou por se contaminar sem perceber, quero dizer,
Já havia se tornado indiferente
A toda essa merda em que estamos enredados.

Mas neste dia
Especialmente neste dia
O chão estava limpo, impecável
E o encarregado
Sentiu ao olhar aquele chão
Uma estranha sensação
Que não saberia colocar em palavras.

Contrariando as ordens do patrão, dali em diante,
Todos os cafés foram por conta da casa.

Friday, September 22, 2006

Nua Desgraça


Esperava ansiosa a chegada do marido
O vestido limpo, passado, justo, posto.
O cabelo alisado, pela primeira vez.

Surpresa.

O coração batia depressa
Queria ser vista logo
Queria abraça-lo, beija-lo
Quebrar a rotina e ser feliz por uma noite
Como nas primeiras noites.

Tão longínquas essas lembranças
Escapam-lhe por entre os dedos da memória.

Sentada na beirinha do sofá
Para não amassar o vestido
Esperava.
O fato dele não ter se lembrado
Quando acordou pela manhã
Que este era um dia especial
De modo algum lhe causou desgosto.
Compreendia bem que tinha muitas outras preocupações
Para ficar atado a coisas assim, de menor importância.
Na verdade, achou bom que ele não tivesse lembrado.

Surpresa.

Mas o homem não chegava.
Começou a suar nas mãos e na testa
E por não querer estragar o cabelo ao limpar o suor
Suava mais
As gotas corriam pelo seu rosto sem que ela as tocasse.

Não chegava o homem.

Ela se levantou
Comeu um pouco de arroz frio com uma colher
Bebeu um ou dois copos da água
Deu três passos para lá, dois para cá
Repetidas vezes
Três para lá, dois para cá
Até que caiu novamente no sofá
Desta vez já não sem importando com o vestido.


Passou a mão na testa com força
Arrastou com o movimento os cabelos tão cuidadosamente arrumados
Limpou o suor no vestido
Ficou assim por um tempo, satisfeita.
Serviu-se de um bom prato de comida
Pensou, que vá à merda esse desgraçado
Arrancou o vestido e ficou nua
Segurava o prato de comida e comia com uma colher
Nua, no centro da sala.
Mastigava e tomava um gole de vinho
Até vinho tinha!
A brisa da noite acariciava-lhe o corpo
Teve calafrios, estava excitada
Queria sexo, e dava colheradas.

Surpresa.

Foi neste momento que o marido chegou.
Gritou, que porra é essa mulher!
Ela jogou no chão o prato
E sem dizer palavra aos seus braços se lançou.

Onde você estava?
Trabalhando
Parabéns
Pelo quê?
Pelos nossos 20 anos.

Ele então compreendeu toda situação
Sentiu pena daquela mulher
Porque mentia ao dizer que estava no trabalho
Estava mesmo era no samba
Tocando pandeiro e tomando cerveja
Uma atrás da outra
Sem se preocupar em voltar para casa.

Mas que importa, que porra importa?
Arrancou-lhe a camisa, fez carícias em todo seu corpo.
Foram para o quarto, fizeram amor,
Fizeram, fizeram, fizeram amor
Por longas horas.

Depois ela se levantou
Buscou um prato de comida para o marido
Deitou-se, virou de lado
E sem que ele percebesse
Talvez ele nem se importasse, chorou.
As lágrimas jorravam de seus olhos
Chorou muito, chorou dias, chorou por todos os anos infelizes
Ao lado daquele miserável.
Dormiu em meio a esse pranto de dor profunda
E quando acordou ele já não estava mais lá.

Levantou-se sonolenta e espiou pela janela:
A vida seguia triste e estúpida
Com um lindo sol de deboche
Brilhando no céu.

Thursday, September 21, 2006

Palavras Cruzadas

Palavras cruzadas, nas ruas, calçadas,
No centro da roda, na mesa de bar.
O infortúnio e o presente, o futuro demente,
E o passado que vem perturbar.
Lembranças, heranças, retratos marcados,
Retratos queimados, fumaça de dor.
Sonhos, pesadelos,
Delírio e medo,
A vida na tela do computador.
Palavra atrasada, mente perturbada, cuspindo palavras no ar.
Ouvidos atentos, raciocínio lento,
Monitoramento pelo celular.

Conversa sem nexo, puro retrocesso, ninguém sabe o que dizer.
Conversa fiada, palavras tiradas de um livro sem sentido algum.
Conversa babaca, vendida enlatada nas redes de televisão.

Palavras cruzadas, palavras usadas, palavras batidas,
Conversa enlatada,
Conversa babaca, palavras cuspidas no ar.
Ouvidos atentos,
Raciocínio lento na mesa de bar.
O infortúnio e o presente demente,
O futuro que vem perturbar.

A vida atrasada, nas ruas, calçadas,
Lembranças queimadas,
Fumaça de dor.

Cuspindo palavras, cuspindo escarradas,
Na tela do computador.

Bukowsky


O cigarro ainda queimava apoiado no cinzeiro
A vitrola tocava um disco antigo
De música clássica
Um livro jazia aberto, sobre a mesa
Uma taça de vinho pela metade.

O relógio avançava
Segundo a segundo
Algumas anotações voavam pelo cômodo
Ventava, um vento gelado de inverno
E não fazia sol.

As fotos também estavam ali
Sorrisos amarelos
Sem graça alguma.

A morte chega sem aviso:
Se soubesse que este seria o grande dia, faria tudo ao contrário.

Fumaria baseados ao invés de cigarros
Escutaria Rock pesado e não música clássica
Lançaria o relógio pela janela
Não anotaria porra nenhuma,
Nem faria planos para amanhã.
Tomaria o vinho direto da garrafa.
Rasgaria fotos indesejadas que lhe traziam saudades de um tempo perdido
E deixaria que o vento levasse
Este resquício de memória descartável.

Mas para ele era um dia normal.

Sentou para descansar no final da tarde
E apanhou para ler um livro que comprara horas mais cedo
Numa banca de jornal.

Morreu aos 75 anos, com um sorriso bobo no rosto e as calças arriadas.
Parecia satisfeito: Bukowsky foi sua última companhia.


Obs: Charles Bukowsky, escritor alemão radicado nos EUA. Um bêbado , um velho safado, um escritor simplesmente genial. Quem não o conhece esta perdendo boas risadas...