
Chuva forte.
Dois indivíduos procuram se abrigar
Embaixo do toldo de um bar
Fechado.
Como estavam vestidos
Não vem ao caso.
Como bebiam café
Não vem ao caso.
Como trepavam
Não vem ao caso.
Apenas queriam se abrigar.
Um deles havia chegado antes
E já estava descansado do pique que dera
Para fugir da chuva e chegar ao abrigo.
O outro chegava agora, neste instante,
Ofegante e escorrido.
Tem espaço aí?
O outro deu um passo para o lado:
Claro.
Ficaram assim por um tempo.
Olhando a chuva.
Olhando os sapatos molhados.
Apenas os dois, o bar, a água correndo.
Foi quando o primeiro se adiantou:
Notei seu sotaque. O senhor de onde vem?
Nasci no Líbano, mas quando tinha 10 anos
Meu pai foi atingido por um míssel israelense quando voltava do trabalho
E minha mãe decidiu que era hora de viajar.
Viemos para São Paulo, e nunca mais voltamos.
Libanês, então? Perguntou o primeiro.
Exato.
Mas o senhor também tem um sotaque diferente, disse o libanês. É estrangeiro?
Sim, nasci em Israel, morei aí por toda minha vida,
Até que um dia uma bomba caiu sobre minha casa.
Então eu decidi que seria melhor visitar meus parentes no Brasil
E aqui estou, até hoje...
Um minuto de silêncio.
O israelense diz,
Parece que a chuva diminuiu
Parece que sim...
Bom, vou indo então...Tenha um bom dia.
Pra você também, tudo de bom.
Mais tarde, o bar abriria as portas.
Passavam por ali todos os dias
As espécies mais desgraçadas de seres humanos
Prontos para furar o seu fígado
Com um pedaço de vidro cortante.
Aquele espaço coberto pelo toldo
Onde essas duas vidas se cruzaram despretensiosamente
Por inúmeras vezes
Foi o palco da tragédia fatal
Da vida marginalizada
Das ruas.
Não foram poucos os dias
Em que o encarregado do bar
Viu rios de sangue manchando aquele exíguo espaço.
De fato, o cheiro de morte fresca invadira tanto seus pulmões
Que acabou por se contaminar sem perceber, quero dizer,
Já havia se tornado indiferente
A toda essa merda em que estamos enredados.
Mas neste dia
Especialmente neste dia
O chão estava limpo, impecável
E o encarregado
Sentiu ao olhar aquele chão
Uma estranha sensação
Que não saberia colocar em palavras.
Contrariando as ordens do patrão, dali em diante,
Todos os cafés foram por conta da casa.
Dois indivíduos procuram se abrigar
Embaixo do toldo de um bar
Fechado.
Como estavam vestidos
Não vem ao caso.
Como bebiam café
Não vem ao caso.
Como trepavam
Não vem ao caso.
Apenas queriam se abrigar.
Um deles havia chegado antes
E já estava descansado do pique que dera
Para fugir da chuva e chegar ao abrigo.
O outro chegava agora, neste instante,
Ofegante e escorrido.
Tem espaço aí?
O outro deu um passo para o lado:
Claro.
Ficaram assim por um tempo.
Olhando a chuva.
Olhando os sapatos molhados.
Apenas os dois, o bar, a água correndo.
Foi quando o primeiro se adiantou:
Notei seu sotaque. O senhor de onde vem?
Nasci no Líbano, mas quando tinha 10 anos
Meu pai foi atingido por um míssel israelense quando voltava do trabalho
E minha mãe decidiu que era hora de viajar.
Viemos para São Paulo, e nunca mais voltamos.
Libanês, então? Perguntou o primeiro.
Exato.
Mas o senhor também tem um sotaque diferente, disse o libanês. É estrangeiro?
Sim, nasci em Israel, morei aí por toda minha vida,
Até que um dia uma bomba caiu sobre minha casa.
Então eu decidi que seria melhor visitar meus parentes no Brasil
E aqui estou, até hoje...
Um minuto de silêncio.
O israelense diz,
Parece que a chuva diminuiu
Parece que sim...
Bom, vou indo então...Tenha um bom dia.
Pra você também, tudo de bom.
Mais tarde, o bar abriria as portas.
Passavam por ali todos os dias
As espécies mais desgraçadas de seres humanos
Prontos para furar o seu fígado
Com um pedaço de vidro cortante.
Aquele espaço coberto pelo toldo
Onde essas duas vidas se cruzaram despretensiosamente
Por inúmeras vezes
Foi o palco da tragédia fatal
Da vida marginalizada
Das ruas.
Não foram poucos os dias
Em que o encarregado do bar
Viu rios de sangue manchando aquele exíguo espaço.
De fato, o cheiro de morte fresca invadira tanto seus pulmões
Que acabou por se contaminar sem perceber, quero dizer,
Já havia se tornado indiferente
A toda essa merda em que estamos enredados.
Mas neste dia
Especialmente neste dia
O chão estava limpo, impecável
E o encarregado
Sentiu ao olhar aquele chão
Uma estranha sensação
Que não saberia colocar em palavras.
Contrariando as ordens do patrão, dali em diante,
Todos os cafés foram por conta da casa.

