Tuesday, September 26, 2006

Tem Espaço Aí?


Chuva forte.
Dois indivíduos procuram se abrigar
Embaixo do toldo de um bar
Fechado.

Como estavam vestidos
Não vem ao caso.
Como bebiam café
Não vem ao caso.
Como trepavam
Não vem ao caso.
Apenas queriam se abrigar.

Um deles havia chegado antes
E já estava descansado do pique que dera
Para fugir da chuva e chegar ao abrigo.
O outro chegava agora, neste instante,
Ofegante e escorrido.

Tem espaço aí?
O outro deu um passo para o lado:
Claro.
Ficaram assim por um tempo.
Olhando a chuva.
Olhando os sapatos molhados.
Apenas os dois, o bar, a água correndo.
Foi quando o primeiro se adiantou:

Notei seu sotaque. O senhor de onde vem?
Nasci no Líbano, mas quando tinha 10 anos
Meu pai foi atingido por um míssel israelense quando voltava do trabalho
E minha mãe decidiu que era hora de viajar.
Viemos para São Paulo, e nunca mais voltamos.

Libanês, então? Perguntou o primeiro.
Exato.

Mas o senhor também tem um sotaque diferente, disse o libanês. É estrangeiro?
Sim, nasci em Israel, morei aí por toda minha vida,
Até que um dia uma bomba caiu sobre minha casa.
Então eu decidi que seria melhor visitar meus parentes no Brasil
E aqui estou, até hoje...

Um minuto de silêncio.

O israelense diz,
Parece que a chuva diminuiu
Parece que sim...
Bom, vou indo então...Tenha um bom dia.
Pra você também, tudo de bom.

Mais tarde, o bar abriria as portas.

Passavam por ali todos os dias
As espécies mais desgraçadas de seres humanos
Prontos para furar o seu fígado
Com um pedaço de vidro cortante.
Aquele espaço coberto pelo toldo
Onde essas duas vidas se cruzaram despretensiosamente
Por inúmeras vezes
Foi o palco da tragédia fatal
Da vida marginalizada
Das ruas.

Não foram poucos os dias
Em que o encarregado do bar
Viu rios de sangue manchando aquele exíguo espaço.
De fato, o cheiro de morte fresca invadira tanto seus pulmões
Que acabou por se contaminar sem perceber, quero dizer,
Já havia se tornado indiferente
A toda essa merda em que estamos enredados.

Mas neste dia
Especialmente neste dia
O chão estava limpo, impecável
E o encarregado
Sentiu ao olhar aquele chão
Uma estranha sensação
Que não saberia colocar em palavras.

Contrariando as ordens do patrão, dali em diante,
Todos os cafés foram por conta da casa.

Friday, September 22, 2006

Nua Desgraça


Esperava ansiosa a chegada do marido
O vestido limpo, passado, justo, posto.
O cabelo alisado, pela primeira vez.

Surpresa.

O coração batia depressa
Queria ser vista logo
Queria abraça-lo, beija-lo
Quebrar a rotina e ser feliz por uma noite
Como nas primeiras noites.

Tão longínquas essas lembranças
Escapam-lhe por entre os dedos da memória.

Sentada na beirinha do sofá
Para não amassar o vestido
Esperava.
O fato dele não ter se lembrado
Quando acordou pela manhã
Que este era um dia especial
De modo algum lhe causou desgosto.
Compreendia bem que tinha muitas outras preocupações
Para ficar atado a coisas assim, de menor importância.
Na verdade, achou bom que ele não tivesse lembrado.

Surpresa.

Mas o homem não chegava.
Começou a suar nas mãos e na testa
E por não querer estragar o cabelo ao limpar o suor
Suava mais
As gotas corriam pelo seu rosto sem que ela as tocasse.

Não chegava o homem.

Ela se levantou
Comeu um pouco de arroz frio com uma colher
Bebeu um ou dois copos da água
Deu três passos para lá, dois para cá
Repetidas vezes
Três para lá, dois para cá
Até que caiu novamente no sofá
Desta vez já não sem importando com o vestido.


Passou a mão na testa com força
Arrastou com o movimento os cabelos tão cuidadosamente arrumados
Limpou o suor no vestido
Ficou assim por um tempo, satisfeita.
Serviu-se de um bom prato de comida
Pensou, que vá à merda esse desgraçado
Arrancou o vestido e ficou nua
Segurava o prato de comida e comia com uma colher
Nua, no centro da sala.
Mastigava e tomava um gole de vinho
Até vinho tinha!
A brisa da noite acariciava-lhe o corpo
Teve calafrios, estava excitada
Queria sexo, e dava colheradas.

Surpresa.

Foi neste momento que o marido chegou.
Gritou, que porra é essa mulher!
Ela jogou no chão o prato
E sem dizer palavra aos seus braços se lançou.

Onde você estava?
Trabalhando
Parabéns
Pelo quê?
Pelos nossos 20 anos.

Ele então compreendeu toda situação
Sentiu pena daquela mulher
Porque mentia ao dizer que estava no trabalho
Estava mesmo era no samba
Tocando pandeiro e tomando cerveja
Uma atrás da outra
Sem se preocupar em voltar para casa.

Mas que importa, que porra importa?
Arrancou-lhe a camisa, fez carícias em todo seu corpo.
Foram para o quarto, fizeram amor,
Fizeram, fizeram, fizeram amor
Por longas horas.

Depois ela se levantou
Buscou um prato de comida para o marido
Deitou-se, virou de lado
E sem que ele percebesse
Talvez ele nem se importasse, chorou.
As lágrimas jorravam de seus olhos
Chorou muito, chorou dias, chorou por todos os anos infelizes
Ao lado daquele miserável.
Dormiu em meio a esse pranto de dor profunda
E quando acordou ele já não estava mais lá.

Levantou-se sonolenta e espiou pela janela:
A vida seguia triste e estúpida
Com um lindo sol de deboche
Brilhando no céu.

Thursday, September 21, 2006

Palavras Cruzadas

Palavras cruzadas, nas ruas, calçadas,
No centro da roda, na mesa de bar.
O infortúnio e o presente, o futuro demente,
E o passado que vem perturbar.
Lembranças, heranças, retratos marcados,
Retratos queimados, fumaça de dor.
Sonhos, pesadelos,
Delírio e medo,
A vida na tela do computador.
Palavra atrasada, mente perturbada, cuspindo palavras no ar.
Ouvidos atentos, raciocínio lento,
Monitoramento pelo celular.

Conversa sem nexo, puro retrocesso, ninguém sabe o que dizer.
Conversa fiada, palavras tiradas de um livro sem sentido algum.
Conversa babaca, vendida enlatada nas redes de televisão.

Palavras cruzadas, palavras usadas, palavras batidas,
Conversa enlatada,
Conversa babaca, palavras cuspidas no ar.
Ouvidos atentos,
Raciocínio lento na mesa de bar.
O infortúnio e o presente demente,
O futuro que vem perturbar.

A vida atrasada, nas ruas, calçadas,
Lembranças queimadas,
Fumaça de dor.

Cuspindo palavras, cuspindo escarradas,
Na tela do computador.

Bukowsky


O cigarro ainda queimava apoiado no cinzeiro
A vitrola tocava um disco antigo
De música clássica
Um livro jazia aberto, sobre a mesa
Uma taça de vinho pela metade.

O relógio avançava
Segundo a segundo
Algumas anotações voavam pelo cômodo
Ventava, um vento gelado de inverno
E não fazia sol.

As fotos também estavam ali
Sorrisos amarelos
Sem graça alguma.

A morte chega sem aviso:
Se soubesse que este seria o grande dia, faria tudo ao contrário.

Fumaria baseados ao invés de cigarros
Escutaria Rock pesado e não música clássica
Lançaria o relógio pela janela
Não anotaria porra nenhuma,
Nem faria planos para amanhã.
Tomaria o vinho direto da garrafa.
Rasgaria fotos indesejadas que lhe traziam saudades de um tempo perdido
E deixaria que o vento levasse
Este resquício de memória descartável.

Mas para ele era um dia normal.

Sentou para descansar no final da tarde
E apanhou para ler um livro que comprara horas mais cedo
Numa banca de jornal.

Morreu aos 75 anos, com um sorriso bobo no rosto e as calças arriadas.
Parecia satisfeito: Bukowsky foi sua última companhia.


Obs: Charles Bukowsky, escritor alemão radicado nos EUA. Um bêbado , um velho safado, um escritor simplesmente genial. Quem não o conhece esta perdendo boas risadas...