Friday, September 22, 2006

Nua Desgraça


Esperava ansiosa a chegada do marido
O vestido limpo, passado, justo, posto.
O cabelo alisado, pela primeira vez.

Surpresa.

O coração batia depressa
Queria ser vista logo
Queria abraça-lo, beija-lo
Quebrar a rotina e ser feliz por uma noite
Como nas primeiras noites.

Tão longínquas essas lembranças
Escapam-lhe por entre os dedos da memória.

Sentada na beirinha do sofá
Para não amassar o vestido
Esperava.
O fato dele não ter se lembrado
Quando acordou pela manhã
Que este era um dia especial
De modo algum lhe causou desgosto.
Compreendia bem que tinha muitas outras preocupações
Para ficar atado a coisas assim, de menor importância.
Na verdade, achou bom que ele não tivesse lembrado.

Surpresa.

Mas o homem não chegava.
Começou a suar nas mãos e na testa
E por não querer estragar o cabelo ao limpar o suor
Suava mais
As gotas corriam pelo seu rosto sem que ela as tocasse.

Não chegava o homem.

Ela se levantou
Comeu um pouco de arroz frio com uma colher
Bebeu um ou dois copos da água
Deu três passos para lá, dois para cá
Repetidas vezes
Três para lá, dois para cá
Até que caiu novamente no sofá
Desta vez já não sem importando com o vestido.


Passou a mão na testa com força
Arrastou com o movimento os cabelos tão cuidadosamente arrumados
Limpou o suor no vestido
Ficou assim por um tempo, satisfeita.
Serviu-se de um bom prato de comida
Pensou, que vá à merda esse desgraçado
Arrancou o vestido e ficou nua
Segurava o prato de comida e comia com uma colher
Nua, no centro da sala.
Mastigava e tomava um gole de vinho
Até vinho tinha!
A brisa da noite acariciava-lhe o corpo
Teve calafrios, estava excitada
Queria sexo, e dava colheradas.

Surpresa.

Foi neste momento que o marido chegou.
Gritou, que porra é essa mulher!
Ela jogou no chão o prato
E sem dizer palavra aos seus braços se lançou.

Onde você estava?
Trabalhando
Parabéns
Pelo quê?
Pelos nossos 20 anos.

Ele então compreendeu toda situação
Sentiu pena daquela mulher
Porque mentia ao dizer que estava no trabalho
Estava mesmo era no samba
Tocando pandeiro e tomando cerveja
Uma atrás da outra
Sem se preocupar em voltar para casa.

Mas que importa, que porra importa?
Arrancou-lhe a camisa, fez carícias em todo seu corpo.
Foram para o quarto, fizeram amor,
Fizeram, fizeram, fizeram amor
Por longas horas.

Depois ela se levantou
Buscou um prato de comida para o marido
Deitou-se, virou de lado
E sem que ele percebesse
Talvez ele nem se importasse, chorou.
As lágrimas jorravam de seus olhos
Chorou muito, chorou dias, chorou por todos os anos infelizes
Ao lado daquele miserável.
Dormiu em meio a esse pranto de dor profunda
E quando acordou ele já não estava mais lá.

Levantou-se sonolenta e espiou pela janela:
A vida seguia triste e estúpida
Com um lindo sol de deboche
Brilhando no céu.

1 comment:

M. said...

ADOREI!