Friday, September 21, 2007

Guerras Íntimas


Para que haja uma guerra
Não é preciso armas
Bombas nem minas terrestres
Nem sequer mísseis teleguiados tão precisos
São essenciais para que haja uma guerra.

Não são necessários milhares de homens
Pelotões de fuzilamento
Cavalarias
Cabos, sargentos, coronéis,
Tanques nem sangue.

Para que haja uma guerra
Não é preciso estratégias militares
Mapas
Bússolas
Capas para camuflagem
Óculos para visão noturna
Aviões supersônicos
Espiões infiltrados
Nações, povos, ditadores ou carnificinas,
Não são necessários para que haja uma guerra.

Para que haja uma guerra de verdade
Com requintes de crueldade
E lágrimas em abundância
Bastam duas pessoas
E um coração
Ferido.

Friday, August 24, 2007

Quando você disse que já não me amava

Quando você disse que já não me amava
O sol iluminava o meu rosto e eu mal podia abrir os olhos.
Me senti como um espectador tranqüilo
Sentado na platéia de um circo triste e patético
Que de súbito percebe que o único fecho de luz do espetáculo recai sobre ele.
Hora de interagir.
Quando você disse que já não me amava
Eu fui forte e agi como homem, não demonstrei desespero.
Por dentro chorava feito bebê.
Te abracei e senti o seu corpo tremendo
E suas lágrimas mancharam minha camisa.

Quando você disse que já não me amava
Eu pensei na primeira vez em que te vi
E ainda que eu desconfie do amor
Digo, sem medo de errar,
Que naquele olhar ele já existia.

Quando você disse que já não me amava
Eu te vi linda, queimada de sol, saindo do mar,
Deitando molhada sobre mim.
Eu num impulso te virei, de brincadeira,
Sobre a areia
E você não gostou. Seu cabelo ficou esquisito por três dias.
Quando você disse que já não me amava
Eu pensei que nunca mais
Encontraria alguém como você
E que você estava cometendo um grande engano
Porque era eu, e mais ninguém,
Que te faria feliz pela eternidade.

Quando você disse que já não me amava
Eu achei que nosso amor morria cedo demais
Tinha muito mais por vir, e por isso eu te pedi,
Para que me amasse um pouco mais.

Quando você disse que já não me amava
Nem sequer me olhou nos olhos.
Eu sabia que era verdade
Mas você chorava muito
De dor ou de pena
De lembranças ainda plenas em seu coração.
Neste instante eu entendi, pela primeira vez, que o amor não é feito de lembranças.
Pelo contrário:
É quando as lembranças se tornam mais fortes do que os momentos,
Que o amor se esvai em pensamentos e cai duro no chão.

Quando você disse que já não me amava eu fiquei incucado,
Parei no primeiro bar e pedi uma cerveja,
E enquanto fumava um cigarro fiquei pensando
Nos momentos em que não fui um bom amante para ti.
Me arrependi de tolices que disse
E enchi a cara.
Tinha certeza de que não havia outra mulher para mim.
Quando você disse que já não me amava
Fazia um calor danado e o mundo prosseguia
Indiferente a minha dor.
Não era mais você quem me dizia.

Estava eu sozinho novamente
E mal sabia por onde começar.

Wednesday, May 30, 2007

Sopa Rasa


Tenho sofrido de fadiga mental.
Ao final do dia, quando chego em casa,
Tudo o que quero é escrever, contar um caso,
Criar um verso ou coisa assim.
Mas não funciona, nada me emociona.

Por mais que eu me esforce – nunca me dou por vencido –
Não há Cristo que me faça aprumar os pensamentos.
É como acordar gago ou dormir bêbado.

Não sai nada.

E os livros na estante, tenho tantos que quero ler.

Não dá tempo.

Quando o dia acaba, uma sopa e um pão me bastam.
Depois me entrego ao sono – sim, vencido – e adormeço um fracassado.
Acordo como um guerreiro para mais um dia
De batalha, de rotina, de migalhas, quase sempre feliz e sempre contrariado.
Vem o trânsito, a fome, o trânsito,
No rádio sempre uma notícia trágica que não me chama a atenção.

Se eu pudesse diria não...
Alternaria as horas do meu dia entre a leitura e a escrita
Jamais ligaria a televisão.

Deve ser por isso que dizem – sempre fui advertido - que o tempo passa tão rápido
E quando nos damos conta
Somos velhos
Temos filhos
Netos
Dor nas costas pela manhã
Nos joelhos durante o dia
Na cabeça quando acaba a novela.

Tenho fadiga mental e uma vontade imensa
De jogar tudo pro alto
Me mandar pro Himalaia
Tibet
Papua Guiné
Indonésia
Rodar a África a pé
Austrália, Malásia
Alaska até...
Ilusão?

Um prato de sopa quente
Uma colher por vez
Um dia, um dia, um dia.
E assim a vida se fez.

Se eu pudesse diria não...

Mas quando acordamos
Os nossos sonhos
Pra onde vão?

Sunday, April 29, 2007

Que Bode!

Ps. Apenas para efeito de contextualização, uma semana depois das últimas eleições uma matéria de telejornal me tirou do sério.
.........

A matéria era sobre um bode.

A repórter estava numa cidadezinha
Lá nos cafundós de Minas Gerais
Porque ali havia um bode famoso
Celebridade mesmo
Tipo Britney Spears do reino animal.

Começou a entrevistar
Os meninos que vendiam frutas frescas na rua:
Quem é a maior celebridade da cidade?
Perguntava.
O bode, responderam, o bode é um sucesso.
Continuou caminhando e perguntando pras pessoas
Quem é o gostosão da cidade?
Todos respondiam, o bode, bode, bode.

O bode era unanimidade.

E onde esta o bode?
Pegou pelo braço um rapaz bem simples
Que se propôs a leva-la,
Até o tal do bode legal.

Chegaram até ele.

Estava deitado, encostado no muro de uma casa velha
Numa nice, tranquilão.
Tinha os pelos tão sujos que pareciam dreads.
Daria inveja ao bom e velho Bob.
Não pareceu, no entanto, gostar da intromissão
Porque pouco tempo depois da chegada da equipe jornalística
O bode se levantou e ensaiou uma ofensiva ao câmera-man.

O bode era mesmo uma estrela.

Prosseguia a matéria, agora com o bode protagonizando as cenas.

O bode não é britânico, disse a repórter,
Mas aparece pontualmente às 7 da manhã e às 5 da tarde para beber leite
Aqui, no bar da dona Cléuzia.
Não é dona Cléuzia?
É sim senhora. Sou eu mesma quem prepara a tigela, vangloriava-se.

Cena do bode bebendo leite com uma pose digna de um bode.

Depois o bode apareceu
Liderando a bandinha de carnaval da cidade.

Que beleza de bode!

De repente...
Música triste.
A repórter diz com voz melancólica:
Mas o bode não esta presente apenas nos momentos de alegria.
Imagem do bode ao lado do caixão
Levando o morto até o cemitério
Junto com a procissão de amigos e familiares
Pelas ruazinhas da cidade.

Só mais um pouco.

Parece que uma prefeita de mal com a vida
Estipulou um dia que todos os animais
Deveriam ser recolhidos da rua.
O bode então foi preso
E a repórter foi conhecer o celeiro
Onde o bode passou seus dias amargos
De cárcere.

Fizeram campanha, clamaram por justiça, soltaram o bode.

Por fim, alguém resolveu gravar um curta metragem
Sobre a vida do bode
Toda a sua ilustre trajetória
Seus feitos marcantes
Sua personalidade única
Seu gênio forte
Tudo o que fez com que ele se tornasse
O bode mais famoso
De uma cidade morta
Dos cafundós
De Minas Gerais.

(Em breve num cinema pertinho de sua casa)

...

Eu sabia que isso ia acontecer.
Era só passar as eleições
Todas as discussões super-hiper-ultra-intelectuais
O futuro do país em nossas mãos
Viva a democracia e tudo mais
Toda essa lengalenga acabaria
Voltaríamos ao ponto de onde, na verdade, nunca saímos.
Quero dizer, não é que falta assunto.
Assunto tem aos montes, mas eles já não nos dizem respeito, entende?
Você, que fez uma força descomunal para conseguir racionalizar a política deste país,
Você, que fez campanha eleitoral voluntária na padaria, no bar, no açougue, você,
Que analisou todas as propostas de governo, você, que foi mesário e prestou seu serviço como cidadão, você, que votou nulo em protesto, você, que brigou com sua família por ser adepto de pensamentos socialistas, você, que assistiu aos debates e acompanhou a apuração voto a voto, você, vocês, nós todos, vejamos o que nos deram em troca. Um belo e vistoso bode. Não sei se vocês pegaram a idéia, mas como as eleições ainda estão frescas em nossa memória, quero apenas chamar a atenção para o fato de que a nossa participação na política desta democracia exemplar se resume ao voto, e que todos os discursos extremamente eloqüentes que pareciam pura demagogia de campanha para angariar o seu apoio, não passavam disso mesmo. Agora que o bicho começa a pegar de verdade, nos deixam de lado.
Vocês se lembram, não é?
Dos jornais recheados de flagrantes históricos, das informações desencontradas, dos jogos de manipulação política, do radicalismo frouxo, dos tiozinhos estranhos que apareciam na hora do jantar em sua televisão, daquele dia em que assistiu ao horário eleitoral e se mijou de rir porque os negos tinham propostas bizarras, puta merda,
Vocês lembram disso?
Porque eu lembro.

Enquanto nossa necessidade de conhecimento acerca de nosso país for saciada por bodes inteligentes, bundas e craques de futebol, continuaremos sendo meros espectadores dessa baboseira política. Quero dizer, enfim, que somos algo parecido com o horário político eleitoral e seus personagens mirabolantes:

Válidos, sim, mas pra quem assiste a gente lá do planalto...
É de mijar de rir!

E até a próxima.

Tuesday, March 20, 2007

Sobre o tédio, o amor e a alegria

Bem sei que ainda te dói o peito, meu bom amigo, quando te lembras dos bons e preciosos momentos que desfrutaram, despretensiosamente, você e sua amada, ao longo de todo este tempo em que estiveram juntos. Construiu-se em torno de vocês a velha magia que costuma envolver a todo casal apaixonado: eram apenas um, ainda que fossem dois. Sabes bem o que quero dizer. De repente, quando findou a última troca de olhares apaixonados, foi como se te tivessem arrancado um braço ou uma perna. Ao mesmo tempo, inexplicavelmente, percebeste um bocado de sanidade para enxergar o dia seguinte com mais clareza. Sente-se imóvel, é verdade. Mas percebes a liberdade vindo novamente visitar-lhe a alma e, ainda que sofras a dor desta inestimável ausência, não podes negar que a separação te trouxe uma perspectiva motivadora de vida nova e imprevisível.
Se quiseres, arrumarás outro amor, ainda mais forte que este último, que te fará feliz por um tempo indeterminado, uma vida inteira, quem sabe? Também podes, pois bem sabes que estás livre, te afastar de todo e qualquer sentimento mais profundo e dedicar-se, de corpo e alma, aos prazeres terrenos. E estes não são poucos. No âmbito profissional engrenarás, se assim desejar, numa promissora carreira como designer de produtos que ajudem os velhinhos - o futuro de nossa nação e nosso inevitável destino – a viverem mais confortavelmente seus últimos anos em companhia de seus preciosos filhos. Ou então – quem pode prever o futuro? – ganharás rios de dinheiro com um kit de higiene para cachorros de dondocas, imagem que te vieste à cabeça num dia em seu espírito desbravava misteriosas dimensões. Terás tudo o que desejar, até que se reinicie o ciclo natural do homem e tu percebas que sozinho já não se basta, falta alguém para somar e dividir.
E quando isto acontecer, irmão querido, te esquecerás de todas as regalias que só os que vivem no mais pleno afastamento do amor podem desfrutar. Serás novamente apenas um, você e sua companheira um corpo apenas, tocando a vida até o dia em que a alegria se extinguir e o convívio se tornar um peso insuportável de agüentar. E isto se repetirá, muito mais que uma vez, até que um dia perceberás que não há mais razão para tantas despedidas, simplesmente porque a felicidade nunca é eterna, nem sequer é constante. O tédio sempre existirá - em alguns lares com mais intensidade que em outros - e sempre haverá uma televisão ligada passando futebol ou novela, no sofá da sala um ou mais rostos emburrados olhando a tela. A vida também é feita de momentos assim, não há como evita-los. O importante é que fique claro, e que disto não te esqueças: ainda que não pareça, podemos ser felizes sozinhos. Mas felizes e completos, caminhando de peito inchado e aberto, só mesmo com alguém do lado para compartilhar.

Saturday, January 13, 2007

Luiza em Pétalas

Luiza estava pronta para ir embora,
Vestida,
Calça jeans colada e salto alto,
Quando tudo recomeçou.
Tira tudo.
Não pára.
Mais forte.
Debruçou-se no aparador, derrubou um vaso de rosa.
Não importa. Mais forte.
Não pára.
Caiu no chão, deitou-se sobre a flor.

Desfeita em pétalas.

Vem, vem.
Sussurrou.
Vem, assim.
Quero você, mais.
Sentiu o peso do homem sobre seu corpo miúdo.
Corpos molhados.
Uma espessa gota de suor caiu sobre sua testa,
achou graça.
Um sorriso em meio a gemidos,
um sussurro em meio a giros, um grito.
Vira assim, coloca a perna pra lá.
Assim, agora vai.
Não pára, não pára, não pára.
Não, assim não. Machuca.
Tenta desse jeito.
Não?
Convencional.
Chega de estripulias.
Acabe logo com isso.
Vem tesão,
Devagar.
Só um pouco.
Te quero tanto...

Suspiros.
Sussurros.
Gemidos.
Gemidos, mordidas, beliscos.
Peso e suor.

Pétalas.

Estou quase, não pára.
Eu também, me espera.
Então vem.
Eu vou.
Vem.
Vou.
Agora, agora, agora!
Um grito seco
De angústia e orgasmo:

Puta que pariu!
O quê?
A camisinha...
Merda!

Na hora H, Luiza estava pronta para se mandar...
Nunca mais foi.

Vagões Latino-Americanos

Um homem e uma mulher.
Um pai, um filho.
Dois irmãos.
Inimigos.
Um gordo, um torto, um vesgo, um louco.
Casal de velhos.
Trabalhadores.
Desconhecidos.
Mendigos.
Um par de homens.
Vultos, sombras, imagens desfiguradas.
Duas mulheres.
Jovens, uma grávida a outra lésbica.
Índios.
Catadores de lixo.
Pretos.
Bêbados e ridículos.
Bonitos, um par de gente.
Comuns.
Seres humanos.
Macacos.
Retrato estático.
Um par de trilhos.
Destinos.
Vagões abandonados como trastes.
Dois mitos.
Milagres.
Ricos e covardes.
Invisíveis.
Sérios.
Miseráveis.
Calhordas. Assassinos.

Quem somos nós?
Sozinhos
Tateando caminhos com a ponta dos dedos.
Quem somos nós?
Sozinhos
Um pontinho anacrônico escorrendo no tempo.
Quem somos nós?
Sozinhos
Esperando um trem que não vem.