Sunday, April 29, 2007

Que Bode!

Ps. Apenas para efeito de contextualização, uma semana depois das últimas eleições uma matéria de telejornal me tirou do sério.
.........

A matéria era sobre um bode.

A repórter estava numa cidadezinha
Lá nos cafundós de Minas Gerais
Porque ali havia um bode famoso
Celebridade mesmo
Tipo Britney Spears do reino animal.

Começou a entrevistar
Os meninos que vendiam frutas frescas na rua:
Quem é a maior celebridade da cidade?
Perguntava.
O bode, responderam, o bode é um sucesso.
Continuou caminhando e perguntando pras pessoas
Quem é o gostosão da cidade?
Todos respondiam, o bode, bode, bode.

O bode era unanimidade.

E onde esta o bode?
Pegou pelo braço um rapaz bem simples
Que se propôs a leva-la,
Até o tal do bode legal.

Chegaram até ele.

Estava deitado, encostado no muro de uma casa velha
Numa nice, tranquilão.
Tinha os pelos tão sujos que pareciam dreads.
Daria inveja ao bom e velho Bob.
Não pareceu, no entanto, gostar da intromissão
Porque pouco tempo depois da chegada da equipe jornalística
O bode se levantou e ensaiou uma ofensiva ao câmera-man.

O bode era mesmo uma estrela.

Prosseguia a matéria, agora com o bode protagonizando as cenas.

O bode não é britânico, disse a repórter,
Mas aparece pontualmente às 7 da manhã e às 5 da tarde para beber leite
Aqui, no bar da dona Cléuzia.
Não é dona Cléuzia?
É sim senhora. Sou eu mesma quem prepara a tigela, vangloriava-se.

Cena do bode bebendo leite com uma pose digna de um bode.

Depois o bode apareceu
Liderando a bandinha de carnaval da cidade.

Que beleza de bode!

De repente...
Música triste.
A repórter diz com voz melancólica:
Mas o bode não esta presente apenas nos momentos de alegria.
Imagem do bode ao lado do caixão
Levando o morto até o cemitério
Junto com a procissão de amigos e familiares
Pelas ruazinhas da cidade.

Só mais um pouco.

Parece que uma prefeita de mal com a vida
Estipulou um dia que todos os animais
Deveriam ser recolhidos da rua.
O bode então foi preso
E a repórter foi conhecer o celeiro
Onde o bode passou seus dias amargos
De cárcere.

Fizeram campanha, clamaram por justiça, soltaram o bode.

Por fim, alguém resolveu gravar um curta metragem
Sobre a vida do bode
Toda a sua ilustre trajetória
Seus feitos marcantes
Sua personalidade única
Seu gênio forte
Tudo o que fez com que ele se tornasse
O bode mais famoso
De uma cidade morta
Dos cafundós
De Minas Gerais.

(Em breve num cinema pertinho de sua casa)

...

Eu sabia que isso ia acontecer.
Era só passar as eleições
Todas as discussões super-hiper-ultra-intelectuais
O futuro do país em nossas mãos
Viva a democracia e tudo mais
Toda essa lengalenga acabaria
Voltaríamos ao ponto de onde, na verdade, nunca saímos.
Quero dizer, não é que falta assunto.
Assunto tem aos montes, mas eles já não nos dizem respeito, entende?
Você, que fez uma força descomunal para conseguir racionalizar a política deste país,
Você, que fez campanha eleitoral voluntária na padaria, no bar, no açougue, você,
Que analisou todas as propostas de governo, você, que foi mesário e prestou seu serviço como cidadão, você, que votou nulo em protesto, você, que brigou com sua família por ser adepto de pensamentos socialistas, você, que assistiu aos debates e acompanhou a apuração voto a voto, você, vocês, nós todos, vejamos o que nos deram em troca. Um belo e vistoso bode. Não sei se vocês pegaram a idéia, mas como as eleições ainda estão frescas em nossa memória, quero apenas chamar a atenção para o fato de que a nossa participação na política desta democracia exemplar se resume ao voto, e que todos os discursos extremamente eloqüentes que pareciam pura demagogia de campanha para angariar o seu apoio, não passavam disso mesmo. Agora que o bicho começa a pegar de verdade, nos deixam de lado.
Vocês se lembram, não é?
Dos jornais recheados de flagrantes históricos, das informações desencontradas, dos jogos de manipulação política, do radicalismo frouxo, dos tiozinhos estranhos que apareciam na hora do jantar em sua televisão, daquele dia em que assistiu ao horário eleitoral e se mijou de rir porque os negos tinham propostas bizarras, puta merda,
Vocês lembram disso?
Porque eu lembro.

Enquanto nossa necessidade de conhecimento acerca de nosso país for saciada por bodes inteligentes, bundas e craques de futebol, continuaremos sendo meros espectadores dessa baboseira política. Quero dizer, enfim, que somos algo parecido com o horário político eleitoral e seus personagens mirabolantes:

Válidos, sim, mas pra quem assiste a gente lá do planalto...
É de mijar de rir!

E até a próxima.

1 comment:

Anonymous said...

You write very well.