Wednesday, September 30, 2009

África Brasileira


O texto abaixo é na verdade uma composição baseada num conto africano escrito por Odeir Santos, amigo e educador.

Um homem gritou “guerra!”
Moveu o céu e a terra
Armou-se até os dentes e partiu.

Lançou-se a própria sorte
Pensava só em morte
Enquanto comandava seu navio.

Quando lhe perguntavam o motivo
De tanto ódio e rancor em seu juízo
O homem simplesmente respondia
“Tiraram de meus braços minha cria!”

O homem que gritava
Uma nação reinava
Seu reino se chamava Ogum.

No continente africano
Lutava feito espartano
Pra garantir o bem de cada um.

Três meses navegando sem parar
Na costa brasileira veio dar
Ignorou os santos da Bahia
“Tiraram de meus braços minha cria!”

Bahia da Lapinha do Ganzá
Xequerê e Orixá
Vai ter guerra.

Bahia patuá
Mandinga, saravá
Chibata pra sangrar
Vai ter guerra.

O rei entrou na mata
Tomado pela raiva
Pra procurar seu filho Naruê.

Foi só em Cachuera
Lugar de rara beleza
Que avistou seu pequeno Erê.

A hora certa viria ao anoitecer
Quando os tambores começassem a bater
O rei na bova do rio se repetia
“Tiraram de meus braços minha cria!”

Chegara o grande momento
Tremendo acontecimento
Ouviu-se o primeiro batuquê.

Ogum puxou a lança
Andou com confiança
Parou de frente a porta do Ylê.

O que aconteceu ninguém previa
O povo o saudou com alegria
Debaixo da saia de Ya Dandara
O pequeno Erê bebia água.

Erê se lambuzava a lagodaça.

Ogum bebeu cachaça
Erê entrou na dança
A benção dos céus chegava
No sorriso da criança.

Fez-se uma nova nação
Rei D’Ogum beijou a terra
Encontrara seus irmãos.

Nos confins de Cachuera
Nascia a África Brasileira.

Matéria Bruta


Vejo um homem caminhar lentamente
Apoiado sobre uma bengala improvisada
Com barra de ferro de academia de ginástica.

Ele me vê
Eu o vejo.

Caminha por entre os carros
Coloca e tira o boné para motoristas
Faz cara de fome e suplica.
A noite embora quente é fresca
Porque choveu mais cedo.

Caminha a passos curtos
Esforça-se para avançar uns metros
E chegar até mim.
Postado diante da porta do carro
Emite um sonoro “boa noite, senhor”
Estende o boné e sacode a cabeça.
Pela minha cabeça passam frases e idéias mesquinhas
Baseadas em teorias sociais extraídas
De propaganda política.

Eu bato as mãos no bolso e faço cena
Procuro moedas nos buracos do painel
Sabendo que ali não há um tostão.
Não quero que ele pense que sou egoísta, preconceituoso ou racista.
Quando volto meu rosto a ele para soltar uma resposta padrão
Olho nos seus olhos, bem fundo
Daquele jeito que se olha pra espiar a alma.
E ali me vejo.

Não há absolutamente nada que o torne diferente de mim.
A distância que separa Deus a ele
É a mesma que separa Deus a mim.

Há muitos anos um homem e uma mulher fizeram amor
Um espermatozóide fecundou um óvulo
Deu mais ou menos 9 meses e nasceu um bebê
Berrando afogado em líquido amniótico.
Ele tropicou e caiu de cara no chão
Quando aprendia a andar.

Isso aconteceu comigo
Aconteceu com você também.

De mijar na cama
De sentir fome e pedir colo
De ter medo de coisas como escuro, raio e gente.
Temos muito mais em comum:
O primeiro beijo
A primeira paixão
Esses momentos que todo ser humano
Independente do lugar e da condição de nascimento
É obrigado a enfrentar.

No entanto, ele continua parado diante da minha porta.

Olho seu rosto novamente e não me restam dúvidas:
Somos feitos da mesma matéria bruta.

O sinal abre e os carros avançam, inclusive o meu.
Pelo retrovisor eu vejo o homem desviando com dificuldade
Do tráfico em movimento. Buzinas o apressam.
Apoiado sobre uma bengala improvisada
Com barra de ferro de academia de ginástica
Um homem caminha lentamente.

Mas desta vez a rádio toca o hit do verão
E eu, entretido, não olho em sua direção.