Friday, November 10, 2006

Flamenco-jazz

Graças ao meu grande amigo Tanga, percussionista de primeira qualidade e grande conhecedor de música, tenho o prazer de escutar neste momento, 3:43 da manhã de um sábado qualquer, uma mistura inusitada e deliciosa de música flamenca e jazz. Sempre que me deparo com coisas do tipo, música fina feita por gênios, fico emocionado e feliz, transbordo. Um novo mundo se apresenta e me desafia, grita em meu ouvido, Expanda seus sentidos, eu obedeço. Sou outro, castanholas, piano e contrabaixo e um instrumento de sopro grave que não consigo identificar. Gosto tanto de música que ela já faz parte de mim, ocupa meus pensamentos vagos, distrai minha solidão, me ergue. Mas também pode embalar meu sono.
Flamenco-jazz, madrugada rara. Doces sonhos me aguardam.

Monday, November 06, 2006

Mais um a Menos




Era domingo, quase 11 horas da noite, soprava um vento gelado e a cidade estava praticamente deserta. No canteiro que separa os dois lados da avenida, reunia-se um grupo de garotos de rua, cada um com seu rodinho e sua garrafa de água misturada com sabe-se-lá-o-quê nas mãos, alguns cheiravam cola, outros não, frio todos tinham. O semáforo fechou, um dos meninos avançou na direção do meu carro. Um outro, um pouco menor, seguiu o primeiro. Ofereceu-se, o maior, para limpar o vidro. Eu fumava um cigarro e não tinha, que surpresa, nenhuma moedinha.

- Obrigado, não tenho nada mesmo.
- Dá um cigarro então, tio? – era o maior que pedia.
- Você é muito novo, rapaz. Não vou te dar nada.
- Num sou novo não, mano.
- Quantos anos você tem?
- Catorze – pode ser que ele realmente tivesse, dado que a alimentação e os hábitos de vida afetam o desenvolvimento físico, mas o fato é que ele aparentava uns oito ou nove anos, no máximo.
- E você? - disse, dirigindo-me ao menor.
- Onze.
- Dá um cigarro, tio- repetiu o maior- Eu fumo, fumo até baseado, cheiro cola. Só falta mesmo é entrar na vida.
- Não vou te dar, já falei.

O farol abriu, eu avancei lentamente com o carro, olhando o rosto daquele garoto pelo retrovisor. Não lembro o que estava fazendo na rua àquela hora, não lembro nem pra onde ia nem de onde vinha, mas escrevo essas palavras e vejo o rosto do garoto estampado no segundo plano. Fico pensando quantos iguais a ele se escondem pelas ruas e fogem de nossas vistas, deixando-nos isolados numa ilha de ilusão, onde a segurança impera e nos abriga, mas ninguém se atreve a mergulhar nas águas geladas da realidade cruel do mar que nos cerca. Quero dizer: quantas vezes pensamos, ou melhor, refletimos a fundo sobre a violência? Ou sobre a miséria, para atingir a raiz do problema? O conhecimento de que ela existe, sem dúvida alguma, todos temos. Ainda nos restam os olhos. Mas é um conhecimento que se assemelha muito ao conhecimento da morte. Todos temos plena consciência de que um dia, seja cedo ou tarde, com aviso prévio ou sem, nosso dia vai chegar. Bactérias irão se alimentar de nossos restos, que a bem da verdade já não nos servirão de nada (sejam doadores). Talvez por conta desta certeza, tendemos a empurrar o assunto para um canto qualquer de nossa consciência, pensar mais tarde ou jamais pensar, melhor assim, vive-se bem enquanto há vida.
Um dia poderei me reencontrar com aquele menino, que será então um homem, enrijecido pela tristeza da vida, e quando nossos destinos se cruzarem, (ele olhando fixamente para o meu rosto amedrontado, eu pedindo piedade), já será tarde, soprará um vento forte e derradeiro, o mesmo do nosso primeiro encontro. Os pensamentos irão se juntar por um breve instante, todos aqueles que por uma vida evitamos pensar, enfim eles se juntarão, na linha de chegada. Tarde demais. Porque no dia em que o garoto “entrar na vida”, pode ser que seja na minha, e então eu serei apenas mais um a menos, menos um a mais, bactérias e pó.