
O progresso exige suas vítimas.
Antônio vivia numa cidade qualquer do norte do Estado do Tocantins.
Para nós, que temos uma concepção de Brasil segundo olhos urbanos,
Metropolitanos, cosmopolitas,
Essa região não existe,
Antônio não existe.
Neste lugar não há comércio, anda-se de cavalo,
Os ventos carregam terra e o sol é de rachar.
Sem perspectiva
Antônio saiu do Tocantins rumo ao Maranhão
À procura de trabalho.
Vejam bem, o Maranhão, para quem não sabe,
É praticamente igual ao Tocantins
Como também é o Pará e o Mato Grosso e Roraima
Nessa região, encontram-se os maiores latifúndios do país
Carvoarias, plantações de cana, pimenta, batata.
Alguns senhores de terra podres de rico e uma massa de miseráveis.
Rumo ao Maranhão, foi vomitado numa cidade qualquer,
Idêntica em todos os aspectos ao local que abandonara dias mais cedo.
O progresso exige suas vítimas.
Chegando ali, instalou-se sem dinheiro num hotel precário e sujo
Assim como ele se encontrava. Não havia contrastes.
Mas sabia que não teria que pagar pelo hotel.
Demorou dois dias para que se apresentasse a ele um sujeito chamado Gilberto,
Profissão Gato, ou intermediador, ou agenciador,
Oferecendo-lhe emprego numa fazenda 300 quilômetros mais ao norte.
O pagamento do hotel ficaria por conta do gato,
Antônio o pagaria mais tarde com trabalho,
Um ótimo negócio.
Se enfiou numa van com mais 15 trabalhadores que se encontravam na mesma situação:
Migrantes, perdidos, agora agenciados.
Sem família, sem comida, corpo surrado.
O progresso exige suas vítimas.
O alojamento era num velho celeiro
O cheiro de merda contaminava cada milímetro cúbico de ar.
A cama era uma rede velha, o fogão era sobre uma pedra no chão
O banheiro era ao ar livre
O banho de caneca.
Ao trabalho:
Cortador de cana precisa de bota para se enfiar no canavial, certo?
Correto.
Aluguel de um par de botas: 20 reais.
Cortador precisa de proteção nos olhos, certo?
Perfeito.
Óculos de proteção: 30 reais.
Seres humanos precisam comer para ficar em pé, certo?
Um saco de arroz: 20 reais
Feijão, 10 reais,
E basta.
Sóbrio ninguém agüenta esta vida, entende?
Cachaça: 10 reais.
Anota no caderno, depois a gente acerta esta dívida
Disse Gilberto.
O progresso exige suas vítimas.
Antônio trabalhou dois meses e nada recebeu.
Pensava em sua família abandonada lá no Tocantins esperando receber
Alguma quantia, podia ser que estivessem passando fome como ele.
Não seria a primeira vez.
Trabalhou mais alguns meses, o caderninho completo, quase nas últimas páginas
Contraindo dívidas para pagar dívidas
Cheirando a merda de cavalo
Dormindo sobre merda de cavalo
Vivendo como uma merda de cavalo.
Belo dia pensou, basta dessa vida,
Procurou Gilberto para o acerto de contas.
Este, por sua vez, foi muito direto,
Te mato, filho da puta, se tu for embora enquanto não me pagar.
Ficou.
O progresso exige suas vítimas.
Por mais alguns anos trabalhou naquela fazenda
Nas mesmas condições e com o mesmo punhado de dinheiro miúdo no bolso
Com o mesmo cheiro de pobre e tão perdido quanto no dia em que chegou.
Acordou para trabalhar às 4 da manhã num dia quente
Olhou a imensidão daquele descampado
O sol vinha nascendo por detrás do primeiro morro
E num instinto começou a caminhar no rumo oposto do canavial
Sem se importar se iria tomar uma bala nas costas
Porque a vida pra ele realmente já não agradava
E nada valia.
Mas não o atingiram.
Caminhou por um dia e meio por uma estrada deserta
Até que chegou num vilarejo.
Foi à delegacia, indicaram a ele uma organização que luta
Pela erradicação do trabalho escravo
E pra lá ele foi.
Mais tarde, se lembraria, naquela organização talvez tenha sido a primeira vez
Que fora tratado como gente.
O Ministério do Trabalho foi até a fazenda verificar a denúncia
Encontrou o que só podia encontrar
Miséria e canalhice da mais suja
Pessoas doentes, famintas e endividadas
Mas ingênuas e desesperançosas também.
Libertou a todos os trabalhadores escravos
Pagou a todos o salário que lhes cabia
Cada um que fosse de volta pros braços da família
Todos sabendo dos direitos que têm para que não voltem
A ser usados como meio espúrio para o enriquecimento alheio.
Quanto ao dono da fazenda, quando perguntado sobre as condições de trabalho
De seus funcionários, disse a frase que só poderia ter saída da boca
De um homem podre e cruel, um digno filho da puta com todas as letras:
O PROGRESSO EXIGE SUAS VÍTIMAS
........
Segundo estimativas recentes, 25 mil trabalhadores rurais trabalham como escravos em grandes latifúndios em todo o país.
Antônio vivia numa cidade qualquer do norte do Estado do Tocantins.
Para nós, que temos uma concepção de Brasil segundo olhos urbanos,
Metropolitanos, cosmopolitas,
Essa região não existe,
Antônio não existe.
Neste lugar não há comércio, anda-se de cavalo,
Os ventos carregam terra e o sol é de rachar.
Sem perspectiva
Antônio saiu do Tocantins rumo ao Maranhão
À procura de trabalho.
Vejam bem, o Maranhão, para quem não sabe,
É praticamente igual ao Tocantins
Como também é o Pará e o Mato Grosso e Roraima
Nessa região, encontram-se os maiores latifúndios do país
Carvoarias, plantações de cana, pimenta, batata.
Alguns senhores de terra podres de rico e uma massa de miseráveis.
Rumo ao Maranhão, foi vomitado numa cidade qualquer,
Idêntica em todos os aspectos ao local que abandonara dias mais cedo.
O progresso exige suas vítimas.
Chegando ali, instalou-se sem dinheiro num hotel precário e sujo
Assim como ele se encontrava. Não havia contrastes.
Mas sabia que não teria que pagar pelo hotel.
Demorou dois dias para que se apresentasse a ele um sujeito chamado Gilberto,
Profissão Gato, ou intermediador, ou agenciador,
Oferecendo-lhe emprego numa fazenda 300 quilômetros mais ao norte.
O pagamento do hotel ficaria por conta do gato,
Antônio o pagaria mais tarde com trabalho,
Um ótimo negócio.
Se enfiou numa van com mais 15 trabalhadores que se encontravam na mesma situação:
Migrantes, perdidos, agora agenciados.
Sem família, sem comida, corpo surrado.
O progresso exige suas vítimas.
O alojamento era num velho celeiro
O cheiro de merda contaminava cada milímetro cúbico de ar.
A cama era uma rede velha, o fogão era sobre uma pedra no chão
O banheiro era ao ar livre
O banho de caneca.
Ao trabalho:
Cortador de cana precisa de bota para se enfiar no canavial, certo?
Correto.
Aluguel de um par de botas: 20 reais.
Cortador precisa de proteção nos olhos, certo?
Perfeito.
Óculos de proteção: 30 reais.
Seres humanos precisam comer para ficar em pé, certo?
Um saco de arroz: 20 reais
Feijão, 10 reais,
E basta.
Sóbrio ninguém agüenta esta vida, entende?
Cachaça: 10 reais.
Anota no caderno, depois a gente acerta esta dívida
Disse Gilberto.
O progresso exige suas vítimas.
Antônio trabalhou dois meses e nada recebeu.
Pensava em sua família abandonada lá no Tocantins esperando receber
Alguma quantia, podia ser que estivessem passando fome como ele.
Não seria a primeira vez.
Trabalhou mais alguns meses, o caderninho completo, quase nas últimas páginas
Contraindo dívidas para pagar dívidas
Cheirando a merda de cavalo
Dormindo sobre merda de cavalo
Vivendo como uma merda de cavalo.
Belo dia pensou, basta dessa vida,
Procurou Gilberto para o acerto de contas.
Este, por sua vez, foi muito direto,
Te mato, filho da puta, se tu for embora enquanto não me pagar.
Ficou.
O progresso exige suas vítimas.
Por mais alguns anos trabalhou naquela fazenda
Nas mesmas condições e com o mesmo punhado de dinheiro miúdo no bolso
Com o mesmo cheiro de pobre e tão perdido quanto no dia em que chegou.
Acordou para trabalhar às 4 da manhã num dia quente
Olhou a imensidão daquele descampado
O sol vinha nascendo por detrás do primeiro morro
E num instinto começou a caminhar no rumo oposto do canavial
Sem se importar se iria tomar uma bala nas costas
Porque a vida pra ele realmente já não agradava
E nada valia.
Mas não o atingiram.
Caminhou por um dia e meio por uma estrada deserta
Até que chegou num vilarejo.
Foi à delegacia, indicaram a ele uma organização que luta
Pela erradicação do trabalho escravo
E pra lá ele foi.
Mais tarde, se lembraria, naquela organização talvez tenha sido a primeira vez
Que fora tratado como gente.
O Ministério do Trabalho foi até a fazenda verificar a denúncia
Encontrou o que só podia encontrar
Miséria e canalhice da mais suja
Pessoas doentes, famintas e endividadas
Mas ingênuas e desesperançosas também.
Libertou a todos os trabalhadores escravos
Pagou a todos o salário que lhes cabia
Cada um que fosse de volta pros braços da família
Todos sabendo dos direitos que têm para que não voltem
A ser usados como meio espúrio para o enriquecimento alheio.
Quanto ao dono da fazenda, quando perguntado sobre as condições de trabalho
De seus funcionários, disse a frase que só poderia ter saída da boca
De um homem podre e cruel, um digno filho da puta com todas as letras:
O PROGRESSO EXIGE SUAS VÍTIMAS
........
Segundo estimativas recentes, 25 mil trabalhadores rurais trabalham como escravos em grandes latifúndios em todo o país.
O progresso de uns é a miséria de outros.
O progresso de uns é o atraso de todos.