Sunday, December 10, 2006

Escravidão rural ou algo sobre Antônio


O progresso exige suas vítimas.

Antônio vivia numa cidade qualquer do norte do Estado do Tocantins.
Para nós, que temos uma concepção de Brasil segundo olhos urbanos,
Metropolitanos, cosmopolitas,
Essa região não existe,
Antônio não existe.
Neste lugar não há comércio, anda-se de cavalo,
Os ventos carregam terra e o sol é de rachar.
Sem perspectiva
Antônio saiu do Tocantins rumo ao Maranhão
À procura de trabalho.
Vejam bem, o Maranhão, para quem não sabe,
É praticamente igual ao Tocantins
Como também é o Pará e o Mato Grosso e Roraima
Nessa região, encontram-se os maiores latifúndios do país
Carvoarias, plantações de cana, pimenta, batata.
Alguns senhores de terra podres de rico e uma massa de miseráveis.
Rumo ao Maranhão, foi vomitado numa cidade qualquer,
Idêntica em todos os aspectos ao local que abandonara dias mais cedo.

O progresso exige suas vítimas.

Chegando ali, instalou-se sem dinheiro num hotel precário e sujo
Assim como ele se encontrava. Não havia contrastes.
Mas sabia que não teria que pagar pelo hotel.
Demorou dois dias para que se apresentasse a ele um sujeito chamado Gilberto,
Profissão Gato, ou intermediador, ou agenciador,
Oferecendo-lhe emprego numa fazenda 300 quilômetros mais ao norte.
O pagamento do hotel ficaria por conta do gato,
Antônio o pagaria mais tarde com trabalho,
Um ótimo negócio.
Se enfiou numa van com mais 15 trabalhadores que se encontravam na mesma situação:
Migrantes, perdidos, agora agenciados.
Sem família, sem comida, corpo surrado.

O progresso exige suas vítimas.

O alojamento era num velho celeiro
O cheiro de merda contaminava cada milímetro cúbico de ar.
A cama era uma rede velha, o fogão era sobre uma pedra no chão
O banheiro era ao ar livre
O banho de caneca.
Ao trabalho:
Cortador de cana precisa de bota para se enfiar no canavial, certo?
Correto.
Aluguel de um par de botas: 20 reais.
Cortador precisa de proteção nos olhos, certo?
Perfeito.
Óculos de proteção: 30 reais.
Seres humanos precisam comer para ficar em pé, certo?
Um saco de arroz: 20 reais
Feijão, 10 reais,
E basta.
Sóbrio ninguém agüenta esta vida, entende?
Cachaça: 10 reais.
Anota no caderno, depois a gente acerta esta dívida
Disse Gilberto.

O progresso exige suas vítimas.

Antônio trabalhou dois meses e nada recebeu.
Pensava em sua família abandonada lá no Tocantins esperando receber
Alguma quantia, podia ser que estivessem passando fome como ele.
Não seria a primeira vez.
Trabalhou mais alguns meses, o caderninho completo, quase nas últimas páginas
Contraindo dívidas para pagar dívidas
Cheirando a merda de cavalo
Dormindo sobre merda de cavalo
Vivendo como uma merda de cavalo.
Belo dia pensou, basta dessa vida,
Procurou Gilberto para o acerto de contas.
Este, por sua vez, foi muito direto,
Te mato, filho da puta, se tu for embora enquanto não me pagar.
Ficou.

O progresso exige suas vítimas.

Por mais alguns anos trabalhou naquela fazenda
Nas mesmas condições e com o mesmo punhado de dinheiro miúdo no bolso
Com o mesmo cheiro de pobre e tão perdido quanto no dia em que chegou.
Acordou para trabalhar às 4 da manhã num dia quente
Olhou a imensidão daquele descampado
O sol vinha nascendo por detrás do primeiro morro
E num instinto começou a caminhar no rumo oposto do canavial
Sem se importar se iria tomar uma bala nas costas
Porque a vida pra ele realmente já não agradava
E nada valia.
Mas não o atingiram.
Caminhou por um dia e meio por uma estrada deserta
Até que chegou num vilarejo.
Foi à delegacia, indicaram a ele uma organização que luta
Pela erradicação do trabalho escravo
E pra lá ele foi.
Mais tarde, se lembraria, naquela organização talvez tenha sido a primeira vez
Que fora tratado como gente.
O Ministério do Trabalho foi até a fazenda verificar a denúncia
Encontrou o que só podia encontrar
Miséria e canalhice da mais suja
Pessoas doentes, famintas e endividadas
Mas ingênuas e desesperançosas também.
Libertou a todos os trabalhadores escravos
Pagou a todos o salário que lhes cabia
Cada um que fosse de volta pros braços da família
Todos sabendo dos direitos que têm para que não voltem
A ser usados como meio espúrio para o enriquecimento alheio.
Quanto ao dono da fazenda, quando perguntado sobre as condições de trabalho
De seus funcionários, disse a frase que só poderia ter saída da boca
De um homem podre e cruel, um digno filho da puta com todas as letras:

O PROGRESSO EXIGE SUAS VÍTIMAS

........

Segundo estimativas recentes, 25 mil trabalhadores rurais trabalham como escravos em grandes latifúndios em todo o país.


O progresso de uns é a miséria de outros.
O progresso de uns é o atraso de todos.

Friday, December 01, 2006

Espelho

Era uma aluna exemplar.
Bastou isto para que o professor de Direito Penal lhe fizesse uma oferta.

Você quer trabalhar?
Claro que sim
Pois bem, vá a este Fórum, é aqui pertinho
Converse com o Claudiomiro
Ele te dará um emprego.

Os olhos da menina brilharam
Era um momento muito especial.
Passou horas, ao longo deste dia,
Planejando o que iria fazer nos próximos anos.
Resumidamente:
Viajar, ter um amor,
Casar
Ter filhos
Comprar algumas miudezas menos importantes
Discos
Roupas
Petiscos pra antes do jantar.

Chegou ao Fórum
Pediu pelo Claudiomiro
Indicaram o segundo andar
Vara Criminal, final do corredor
É um senhor careca de óculos
Você irá vê-lo, disse a recepcionista.
Subiu as escadas
Com os pensamentos tortuosos.

Era uma sala bem grande
Havia três colunas de seis mesas enfileiradas
Todas com pilhas enormes de processos
E olhando de frente, como ela estava agora,
Não se via o rosto de ninguém por trás dessas barreiras
De papéis embolorados.

Mas avistou logo o tal do Claudiomiro
Que parecia ser um tipo de supervisor.
Caminhava por entre os corredores de mesa
Com um cigarro pendendo da boca
Era um pouco gordo, bem careca
Usava óculos fundo de garrafa
E suava, sua camisa azul clara estava completamente manchada
De suor nas axilas.

Tiveram uma breve conversa
Pareceu gentil, mas tinha um tique estranho:
A cada duas ou três palavras ele
Escancarava a boca, assim como quem quer destampar o ouvido.
Ficou assustada num primeiro momento
Mas com o decorrer da conversa o máximo que sentiu foi pena daquele sujeito.
Ele então disse,
Me acompanhe, venha
Ela o seguia, caminhando no corredor por entre as mesas.
Passaram pela primeira
Segunda, terceira,
Quarta
Quinta
Quando chegaram na sexta mesa
Última do corredor
Claudiomiro disse,
Essa será sua mesa, você começa amanhã
Obrigada, ela disse candidamente.

Ele teve um tique um pouco mais demorado
Ela ficou angustiada
E acabou por aí.


A vida foi correndo
Trabalhava de dia, estudava à noite
Conheceu na faculdade seu namorado
Que se tornaria anos mais tarde seu marido
Tinha uma vida modesta
Mas a felicidade ainda existia.

Veio um filho, veio uma filha
Ela fez das tripas coração para manter a família unida
Fez hora extra no fórum pra dar boa educação aos filhos
Via-os pouco, muito pouco,
Mas só Deus sabe o quanto os amava.

Trabalhou por anos e anos naquela mesma mesa velha
O Claudiomiro morreu no dia em que seu maxilar
Caiu com um acesso nervoso
De tique nervoso
E se asfixiou de alguma maneira que ninguém soube explicar.

Um outro o substituiu,
Todos os dias chegavam processos
Processos
Processos
Coisas do arco da velha ressurgiam
E nossa menina escondida
Por trás desta vida mesquinha e mecânica
Por trás de si mesma e dos problemas alheios.

Quando se deu conta
Seus filhos tinham casado
Um neto estava para chegar
O marido se aposentaria no ano seguinte
E ela, velha, tomando um café atrás do outro
Fumando três maços de cigarro ao dia
Velha, os cabelos brancos
A cara enrugada e manchas senis em volta dos olhos.

Num dia qualquer,
Quando acabou o expediente
Levantou-se calmamente
Desceu as escadas devagar porque as pernas já não prestavam
O Fórum estava vazio
Restavam apenas o segurança noturno
Uns promotores, uns policiais,
Uns seres estranhos que vagavam por ali,
Passou por todos eles
E quando olhou pra fora, qual não foi sua surpresa
Quando avistou Claudiomiro
Com a boca escancarada
Acenando-lhe desesperadamente.

Tudo ficou amarelo,
Depois rosa,
Depois ela estava rodeada de gente
E a cara grande do Claudiomiro
Sobre ela
O que houve? O que houve moça?
Perguntava.
Não sei, acho que me caiu a pressão.
Deram-lhe um copo de água com açúcar
Ela descansou por alguns minutos
Claudimiro veio em sua direção

Quando você desmaiou estávamos a caminho de sua mesa
Ia te mostrar aonde você irá trabalhar.

Olha, agradeço a gentileza seu Claudomiro - disse a moça - mas não será preciso.

Antes de sair do Fórum, parou no banheiro
E se olhou no espelho:
Ao ver sua imagem refletida
Jovem e linda
Tudo fez sentido.
Foi invadida por uma alegria contagiante
Porque era a vida que se apresentava
Ainda menina,
Para ser por ela cultivada cuidadosamente
Como um pé de jabuticaba
No quintal da casa da avó.