Tuesday, October 31, 2006

Aquele estranho dia que nunca chega

O poema abaixo é de Gilberto Freyre, e data de 1926. Na época, o maior historiador brasileiro de todos os tempos tinha apenas 26 anos. Em 1933, publicaria “Casa Grande e Senzala”, seu livro mais conhecido mundo afora. O poema "O outro Brasil que vem aí" inaugura o livro, na primeira página. Passaram-se nada menos que 81 anos desde que este homem cheio de esperança sentou para escrever estas palavras. Ninguém mais do que ele queria que elas se tornassem realidade. Mas, se estivesse vivo, provavelmente mandaria queima-lo. Ao que parece, tudo saiu errado.


O outro Brasil que vem aí

Eu ouço vozes
Eu vejo cores
Eu sinto passos
De outro Brasil
Mais tropical
Mais fraternal
Mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez de cores dos Estados
Terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
Terão as cores das profissões e das regiões.
As mulheres do Brasil em vez de cores boreais
Terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
Todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
O preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
Lenhador
Lavrador
Pescador
Vaqueiro
Marinheiro
Funileiro
Carpinteiro
Contanto que seja digno do governo do Brasil
Que tenha olhos para ver o Brasil,
Ouvidos para ouvir pelo Brasil
Coragem para morrer pelo Brasil
Ânimo de viver pelo Brasil
Mãos para agir pelo Brasil
Mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasil
Mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores
(europeus e norte-americanos a serviço do Brasil)
Mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar)
Mãos livres
Mãos criadoras
Mãos fraternais de todas as cores
Mãos desiguais que trabalhem por um Brasil sem Azeredos,
Sem Irineus
Sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
Nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
Pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
De artistas
De escritores
De operários
De lavradores
De pastores
De mães criando filhos
De pais ensinando meninos
De padres benzendo afilhados
De mestres guiando aprendizes
De irmãos ajudando irmãos mais moços
De lavadeiras lavando
De pedreiros edificando
De doutores curando
De cozinheiras cozinhando
De vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens,
Mãos brasileiras
Brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
Tropicais
Sindicais
Fraternais.
Eu ouço vozes
Eu vejo as cores eu sinto os passos
Desse Brasil que vem por aí.

Insônia

Mais uma noite sem dormir
Imerso no escuro
Do quarto obscuro
Da mente
Os olhos
A boca
Os dentes
Apertados feito corrente
De presídio
De mansão
De igreja
De barraco
O medo é o mesmo
Em todos os lados
Cacos de vidro e dentes
Olhos fechados
Imagem:
Bomba de Hiroxima.
Criança nua
Correndo descalça.
Chacina na Rocinha.
Corpos cobertos de
Plástico negro e
Lágrimas.
Olhos abertos
Calor e medo
Suor e nojo
Uma mosca, um rato,
Rádio quebrado
Silêncio.

O sono não vem.
Imagem.

Algumas crianças cheiram cola
Debaixo da ponte
Entregam folhetos moças tristes.
Um índio
Queimaram debaixo da ponte
Moleques bêbados
Filhos da puta.

Ter medo de quem?

Turistas estrangeiros de passagem pelo Rio de Janeiro
Tiram fotos com belas poses
Casais se beijam e prometem amor eterno
No fundo, a mais bela paisagem.
No canto da foto um cadáver coberto.
Ninguém parece se importar.

Ter medo de quem?

O jornal noticiou
Explode uma bomba soterrada
Da Segunda Guerra Mundial
Durante a construção de uma estrada
Na Alemanha.

Ter medo de quem?

Morrem 40 civis num ataque morrem
10 soldados no Iraque.

Ter medo de quem?

Na África, morrem de fome.
Na Ásia, morrem de fome.
Na Europa não.
Nos Estados Unidos não.
Na América do Sul morrem de fome
Os miseráveis.

Ter medo de quem?

Ter medo de quem?

Ter medo de quem?
Rajadas de metralhadora
Embalam meu sono.
Mas já sei.
Não sonho, não sonharei.
No escuro do quarto
Silêncio
Ratos
Cada coisa que passa
Pela cabeça e deixa
A gente incucado
Antes de pegar no sono.
Lapsos.
As horas passam
O tempo corre com os ponteiros
Giram nas camas
Pessoas assim.

É isso que somos.

Um circo abandonado
Num ciclo sem fim.

Monday, October 16, 2006

BlaBlabacas

Recebo informação por todas as partes.

Querem que eu emagreça
Coma um prato de alfafa e uma pílula milagrosa ao dia
Aceite este padrão estético de merda
Estipulado naturalmente
Pela sociedade ocidental plastificada.

Querem que eu tenha medo das ruas
Dos mendigos e putas
E dos malabaristas no farol.
Como se ser pobre e magro e feio
Fosse uma opção do indivíduo
E não uma imposição social.

Como se a vida fosse fácil!

Querem que eu vote
No partido do povo
No partido dos ricos
E que acredite na honestidade
Dos intelectuais e duvide da possibilidade
De sua existência nessa massa ignorante.

Como se honestidade fosse uma teoria científica!

Querem que eu me interesse pela vida alheia
E feche os olhos para o que pode me afetar.

O que vejo nos jornais, revistas, noticiários,
Em programas burros de entretenimento imbecil
São informações recortadas, montadas feito um quebra-cabeças,
Massageando o ego de algum canalha
Que dita ordens da beira da piscina.
Mas são muito profissionais, essa cambada,
Fazem tudo bem feito
De modo que eu não sei mais em que, ou em quem acreditar.
Vou me arrastando por esse caminho espinhoso
Tentando compreender o que acontece de verdade
Enquanto por todos os lados tentam limitar minha capacidade intelectual.

Mas eu digo, senhores,
Posso não existir na concepção mesquinha de vocês,
Mas que eu penso, miseráveis, quanto a isso não há duvidas.

Cantar de galo, só em outra vizinhança!