Tuesday, October 31, 2006

Insônia

Mais uma noite sem dormir
Imerso no escuro
Do quarto obscuro
Da mente
Os olhos
A boca
Os dentes
Apertados feito corrente
De presídio
De mansão
De igreja
De barraco
O medo é o mesmo
Em todos os lados
Cacos de vidro e dentes
Olhos fechados
Imagem:
Bomba de Hiroxima.
Criança nua
Correndo descalça.
Chacina na Rocinha.
Corpos cobertos de
Plástico negro e
Lágrimas.
Olhos abertos
Calor e medo
Suor e nojo
Uma mosca, um rato,
Rádio quebrado
Silêncio.

O sono não vem.
Imagem.

Algumas crianças cheiram cola
Debaixo da ponte
Entregam folhetos moças tristes.
Um índio
Queimaram debaixo da ponte
Moleques bêbados
Filhos da puta.

Ter medo de quem?

Turistas estrangeiros de passagem pelo Rio de Janeiro
Tiram fotos com belas poses
Casais se beijam e prometem amor eterno
No fundo, a mais bela paisagem.
No canto da foto um cadáver coberto.
Ninguém parece se importar.

Ter medo de quem?

O jornal noticiou
Explode uma bomba soterrada
Da Segunda Guerra Mundial
Durante a construção de uma estrada
Na Alemanha.

Ter medo de quem?

Morrem 40 civis num ataque morrem
10 soldados no Iraque.

Ter medo de quem?

Na África, morrem de fome.
Na Ásia, morrem de fome.
Na Europa não.
Nos Estados Unidos não.
Na América do Sul morrem de fome
Os miseráveis.

Ter medo de quem?

Ter medo de quem?

Ter medo de quem?
Rajadas de metralhadora
Embalam meu sono.
Mas já sei.
Não sonho, não sonharei.
No escuro do quarto
Silêncio
Ratos
Cada coisa que passa
Pela cabeça e deixa
A gente incucado
Antes de pegar no sono.
Lapsos.
As horas passam
O tempo corre com os ponteiros
Giram nas camas
Pessoas assim.

É isso que somos.

Um circo abandonado
Num ciclo sem fim.

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