Wednesday, September 30, 2009

Matéria Bruta


Vejo um homem caminhar lentamente
Apoiado sobre uma bengala improvisada
Com barra de ferro de academia de ginástica.

Ele me vê
Eu o vejo.

Caminha por entre os carros
Coloca e tira o boné para motoristas
Faz cara de fome e suplica.
A noite embora quente é fresca
Porque choveu mais cedo.

Caminha a passos curtos
Esforça-se para avançar uns metros
E chegar até mim.
Postado diante da porta do carro
Emite um sonoro “boa noite, senhor”
Estende o boné e sacode a cabeça.
Pela minha cabeça passam frases e idéias mesquinhas
Baseadas em teorias sociais extraídas
De propaganda política.

Eu bato as mãos no bolso e faço cena
Procuro moedas nos buracos do painel
Sabendo que ali não há um tostão.
Não quero que ele pense que sou egoísta, preconceituoso ou racista.
Quando volto meu rosto a ele para soltar uma resposta padrão
Olho nos seus olhos, bem fundo
Daquele jeito que se olha pra espiar a alma.
E ali me vejo.

Não há absolutamente nada que o torne diferente de mim.
A distância que separa Deus a ele
É a mesma que separa Deus a mim.

Há muitos anos um homem e uma mulher fizeram amor
Um espermatozóide fecundou um óvulo
Deu mais ou menos 9 meses e nasceu um bebê
Berrando afogado em líquido amniótico.
Ele tropicou e caiu de cara no chão
Quando aprendia a andar.

Isso aconteceu comigo
Aconteceu com você também.

De mijar na cama
De sentir fome e pedir colo
De ter medo de coisas como escuro, raio e gente.
Temos muito mais em comum:
O primeiro beijo
A primeira paixão
Esses momentos que todo ser humano
Independente do lugar e da condição de nascimento
É obrigado a enfrentar.

No entanto, ele continua parado diante da minha porta.

Olho seu rosto novamente e não me restam dúvidas:
Somos feitos da mesma matéria bruta.

O sinal abre e os carros avançam, inclusive o meu.
Pelo retrovisor eu vejo o homem desviando com dificuldade
Do tráfico em movimento. Buzinas o apressam.
Apoiado sobre uma bengala improvisada
Com barra de ferro de academia de ginástica
Um homem caminha lentamente.

Mas desta vez a rádio toca o hit do verão
E eu, entretido, não olho em sua direção.

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