Tuesday, March 20, 2007

Sobre o tédio, o amor e a alegria

Bem sei que ainda te dói o peito, meu bom amigo, quando te lembras dos bons e preciosos momentos que desfrutaram, despretensiosamente, você e sua amada, ao longo de todo este tempo em que estiveram juntos. Construiu-se em torno de vocês a velha magia que costuma envolver a todo casal apaixonado: eram apenas um, ainda que fossem dois. Sabes bem o que quero dizer. De repente, quando findou a última troca de olhares apaixonados, foi como se te tivessem arrancado um braço ou uma perna. Ao mesmo tempo, inexplicavelmente, percebeste um bocado de sanidade para enxergar o dia seguinte com mais clareza. Sente-se imóvel, é verdade. Mas percebes a liberdade vindo novamente visitar-lhe a alma e, ainda que sofras a dor desta inestimável ausência, não podes negar que a separação te trouxe uma perspectiva motivadora de vida nova e imprevisível.
Se quiseres, arrumarás outro amor, ainda mais forte que este último, que te fará feliz por um tempo indeterminado, uma vida inteira, quem sabe? Também podes, pois bem sabes que estás livre, te afastar de todo e qualquer sentimento mais profundo e dedicar-se, de corpo e alma, aos prazeres terrenos. E estes não são poucos. No âmbito profissional engrenarás, se assim desejar, numa promissora carreira como designer de produtos que ajudem os velhinhos - o futuro de nossa nação e nosso inevitável destino – a viverem mais confortavelmente seus últimos anos em companhia de seus preciosos filhos. Ou então – quem pode prever o futuro? – ganharás rios de dinheiro com um kit de higiene para cachorros de dondocas, imagem que te vieste à cabeça num dia em seu espírito desbravava misteriosas dimensões. Terás tudo o que desejar, até que se reinicie o ciclo natural do homem e tu percebas que sozinho já não se basta, falta alguém para somar e dividir.
E quando isto acontecer, irmão querido, te esquecerás de todas as regalias que só os que vivem no mais pleno afastamento do amor podem desfrutar. Serás novamente apenas um, você e sua companheira um corpo apenas, tocando a vida até o dia em que a alegria se extinguir e o convívio se tornar um peso insuportável de agüentar. E isto se repetirá, muito mais que uma vez, até que um dia perceberás que não há mais razão para tantas despedidas, simplesmente porque a felicidade nunca é eterna, nem sequer é constante. O tédio sempre existirá - em alguns lares com mais intensidade que em outros - e sempre haverá uma televisão ligada passando futebol ou novela, no sofá da sala um ou mais rostos emburrados olhando a tela. A vida também é feita de momentos assim, não há como evita-los. O importante é que fique claro, e que disto não te esqueças: ainda que não pareça, podemos ser felizes sozinhos. Mas felizes e completos, caminhando de peito inchado e aberto, só mesmo com alguém do lado para compartilhar.

3 comments:

M. said...

Adorei!

Unknown said...

Fiquei arrepiada agora meu querido!
Vc expressou exatamente oq eu penso e tento rabiscar no papel algumas vezes... mas nada como essas suas palavras, combinações tão vibrantes, tão sinceras e famintas desse 'mal' necessário: o tédio, que eu chamo em meus rabiscos e conversas de Rotina.
amei!
bj

Paulinha Costa said...

Vc conseguiu descrever tão nitidamente o que se passou que parece que escreveu a minha estória, é incrível como as experiencias são diferentes e as percepções são as mesmas! Parabens, vc escreve divinamente!